terça-feira, 10 de julho de 2012 | 01:56 | 0 Comentários

Entre o combate e a propaganda

Grupos discriminados ao longo da história lutaram e conquistaram espaço, reconhecimento e leis específicas (Foto: Francini Saldanha)Grupos discriminados ao longo da história lutaram e conquistaram espaço, reconhecimento e leis específicas (Foto: Francini Saldanha)
Vários grupos discriminados ao longo da história lutaram e conquistaram espaço, reconhecimento e leis específicas. Mesmo tendo muito que conquistar, todos tem uma melhor inserção social ainda que carreguem várias pechas de preconceito, vários rótulos, acusações, antipatias, desqualificações e mesmo cerceamentos e não são mais a mola propulsora dos pânicos coletivos. Neste quesito, é a nossa vez, a vez dos LGBTs. Não falo do pânico gerado em nós pela violência, pelas agressões, pelas torturas e assassinatos. Sobre este digo sempre e repito: em vez de nos recolhermos e sermos invisíveis, como querem os homofóbicos, temos mais é que ocupar os espaços, garantir nossos direitos e legitimar cada vez mais nossa existência. Refiro-me ao pânico criado por nossos algozes a partir de nós: o pânico social. Este é sempre criado de maneira pensada, bem arquitetada, com o claro objetivo de tornar um grupo social discriminado, em inimigo da sociedade, seja através de que artifícios torpes forem necessários, de forma que este seja impedido de alcançar equiparação de direitos e exercício pleno de sua cidadania.

O pânico social serve justamente para recrutar uma parcela excluída da sociedade: a que não faz parte do grupo social apartado de seus direitos nem do grupo que quer manter a situação de opressão por tirar proveito do embate. Estas pessoas, à margem de todo este conflito, são recrutadas por dizerem a elas que a sociedade como conhecem mudaria drasticamente caso o grupo discriminado conquistasse cidadania – naturalmente não com estas palavras, mas dizendo que o grupo não é discriminado, que deseja privilégios, proteção especial, que deseja se alçar a uma categoria superior aos demais cidadãos. Defendem, portanto, que o controle, o impedimento à conquista de algum direito é algo plenamente justo, pois serve para conter abusos, concessões especiais, com o claro objetivo de gerar horror em relação a um determinado grupo.

Temos de tomar muito cuidado para não fazer eco a nossos algozes lhe ampliando a voz, lhes dando espaço e lhes promovendo os discursos e ideias (Foto: Getty Images)Temos de tomar muito cuidado para não fazer eco a nossos algozes lhe ampliando a voz, lhes dando espaço e lhes promovendo os discursos e ideias (Foto: Getty Images)
Como grupo-alvo da vez, temos de tomar muito cuidado para não fazer eco a nossos algozes lhe ampliando a voz, lhes dando espaço e lhes promovendo os discursos e ideias. Há muitas pessoas que lutam contra a cidadania LGBT de quem nunca havíamos ouvido falar, nem o público geral e nem sequer tinham destaque midiático e, no entanto, após terem um nicho de promoção, falar impropriedades e absurdos sobre LGBTs, através de agressão e distorção de discursos, estão em destaque e com tal projeção, que arregimentam mais incautos, perturbados e aproveitadores. Dar espaço a este tipo de gente e a seus discursos, citando quem são e o que defendem, mesmo que seja criticando, é promover quem quer mesmo promoção, ou seja, é colaborar com eles. A crítica, o questionamento e a desconstrução do discurso podem ser feitos sem que as pessoas e suas falas sejam citadas de maneira a lhes propagandear. Muitas vezes nos atemos aos discursos e às ações de pessoas sem importância ou influência, que apenas querem se promover à custa de polêmica, em vez de promover ações e textos de quem realmente interessa, ou seja, nossos pares.

Promover os desimportantes, os que têm pouco alcance e nenhum poder efetivo de nos cercear os direitos, serve somente para atrair o tipo de gente torpe que concorda com a discriminação e que nos causa apenas revolta e tristeza. Temos de ter discernimento – o que nem sempre é fácil, como sabemos - para saber quem e o que é importante combater, pois é de fato nocivo à conquista de nossos direitos ou quem é totalmente inócuo e seria apenas promovido de forma gratuita e justamente por nós, seus alvos. Os que têm realmente o poder de decidir sobre a vida alheia, elaborar e aprovar ou reprovar leis, os que têm grande alcance midiático, estes sim, devem ser combatidos, mas ainda assim, com o devido cuidado para não nos usarem como promotores de suas figuras e ideias. E precisamos prestar atenção às estratégias usadas para nos desviar de nossos objetivos. Vamos lutar, mas sem desperdiçar energia com pessoas e coisas que não valem a pena.

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segunda-feira, 2 de julho de 2012 | 14:31 | 0 Comentários

O golpe foi dado, está instalada a #DitaduraGay no Brasil

O golpe foi dado, está instalada a #DitaduraGay no Brasil (Foto: Reprodução/rafucko.com)O golpe foi dado, está instalada a #DitaduraGay no Brasil (Foto: Reprodução/rafucko.com)
O roteiro deste vídeo foi desenvolvido por Rafucko em conjunto, no Twitter, através da hashtag #DitaduraGay. Assista ao vídeo:


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quarta-feira, 20 de junho de 2012 | 21:26 | 3 Comentários

Apagamento das Ids trans e não-cis: como empoderá-las

Por Bia Pagliarini Bagagli

Frequentemente vejo em publicações dos mais diversos gêneros, nas mídias e no cotidiano, situações e enunciados em que as identidades não-cis e trans são apagadas. Poucas pessoas sabem o que é cisgênero, entretanto, é mais provável que tenham ouvido o termo transgênero. Porque será?

Acho que se pode encontrar uma boa comparação entre os termos heterossexual e homossexual. Acredito que ambos os termos são de fácil acesso e uso da população em geral. Mas foi sempre assim? Nem sempre, o homossexual teve que existir primeiro para depois existir o heterossexual. E não estou falando de pessoas empíricas que se relacionam afetivamente/sexualmente com outras, estou me referindo a terminologias, a visibilidade social. Homossexual surgiu primeiro porque transgrediu a norma. E normas são sempre naturalizadas: não é necessário conceituar, de modo a fazer oposição com outro termo, se todas as pessoas são assim, se é natural ser heterossexual e o desviante, e, portanto, o único que deve ser classificado/patologizado é o homossexual. Hoje em dia a homossexualidade não é mais uma patologia e a vivência heterossexual é cada vez mais desnaturalizada, de modo a se fazer entender que não é a única norma a ser seguida e sim, uma possibilidade válida entre outras (infelizmente, fato ainda não alcançado integralmente).

Entretanto, a transgeneridade está ainda em um nível de discussão ainda mais inferior. Isso fica claro pela ausência do uso cisgênero. Fica evidente que ser “normal” é ser cisgênero fazendo das pessoas trans*aberrações. Quando ouvimos “mulher” ou “homem” sempre fica implícito que são pessoas cisgêneras. Quando alguma pessoa trans* é citada, é prontamente identificadx como uma pessoa travesti ou transexual, assim, cria-se a ideia que pessoas trans não são homens ou mulheres de “verdade”. Jornalistas se sentem no direito de usar nomes e gêneros errados com as pessoas trans* segundo argumentos falaciosos sobre o uso correto gramaticalmente.

Pessoas trans* são obrigadas a sempre explicarem seus gêneros, seus corpos, suas identidades, suas orientações; são obrigadas a provarem que são de determinado gênero para conseguirem atendimento médico para mudanças corporais; são obrigadas a dependerem da boa vontade de um juiz para mudarem de nome nos documentos e a cirurgia genital obrigatória para mudarem de sexo; mulheres trans são ora vistas como caricaturas de mulheres, se se utilizam de expressões de gêneros mais tradicionais, ora são vistas como menos mulheres, portanto, menos humanas, se não são femininas o bastante, homens trans* simplesmente não existem já que para o senso comum são “lésbicas masculinas”; pessoas trans* (ou não-cis) que não se identificam no binário de gênero são diminuídas em sua humanidade e acusadas de mancharem a imagem de transgênerxs binárixs. Tudo isso se trata de um pequeno recorte, são exemplos de cissexismo.

Acrescenta-se o prefixo ‘cis’ diante do sexismo para designar toda opressão sofrida pelas pessoas trans*, toda crença de que pessoas trans* são aberrantes. Achar que apenas pessoas trans* possuem identidade de gênero (e pessoas cis possuem apenas gênero) é acreditar que apenas xs trans* constroem sua identidade, isso não é verdade, pois as performances de gênero construídas socialmente utilizadas tanto por pessoas cis quanto por trans* são as mesmas. Mulheres ou homens trans* não reforçam estereótipos de gênero mais do que homens e mulheres cis. O uso do termo cisgênero é necessário para empoderar pessoas trans*, não para criar dicotomias hierárquicas entre quem é mais ou menos trans ou cis, pois existem pessoas fora e além do binário de gênero, mas sim para denunciar privilégios cis, desnaturalizando-os.


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quinta-feira, 12 de abril de 2012 | 02:35 | 0 Comentários

Homofobia pode ser reação de desejo retraído pelo mesmo sexo, diz estudo

Segundo pesquisa internacional, homofobia é mais frequente entre LGBTs que não aceitam sua própria orientação sexual.
(Foto: Gett Imagens)(Foto: Gett Imagens)
Estudo conduzido por universidades americanas e britânicas sugere que a homofobia é mais comum em indivíduos que possuem desejos retraídos pelo mesmo sexo. Tal preconceito cresce ainda por culpa de pais autoritários que reprimem tais desejos, diz a pesquisa publicada na edição de abril do periódico Journal of Personality and Social Psychology.

Os pesquisadores – que são das universidades de Rochester e da Califórnia, nos Estados Unidos, e da Universidade de Essex, na Inglaterra – realizaram quatro experimentos diferentes, cada um envolvendo uma média de 160 estudantes universitários alemães e americanos. A fim de analisar a atração sexual implícita e explícita dos participantes, os cientistas mediram as diferenças entre o que eles diziam sobre sua orientação sexual e como eles regiam em determinadas tarefas.

Os dois primeiros experimentos tinham o intuito de avaliar a atração sexual implícita dos jovens. Para isso, eles tiveram que classificar algumas palavras e imagens exibidas em uma tela de computador como “gay” ou “heterossexual”. Foram também instigados a buscar livremente fotos de pessoas do mesmo sexo ou do sexo oposto.

Já nos dois últimos testes, os cientistas aplicaram questionários que fizeram um diagnóstico do tipo de criação familiar dos participantes, além de suas orientações, crenças e opiniões políticas. Foi medido, por exemplo, o grau de homofobia existente dentro de casa, com indagações do tipo: “Seria assustador para minha mãe descobrir que esteve sozinha com uma mulher homossexual”.

Em todos os experimentos, jovens que cresceram em um ambiente familiar de repressão apresentaram grandes divergências entre o que declararam ser sua orientação sexual e o que foi observado pelos cientistas nos testes de atração sexual enrustida. Além disso, os indivíduos que se declararam heterossexuais, mas não demonstraram isso implicitamente, eram mais propensos a reagir com hostilidade a outros LGBTs.

Segundo os cientistas, os homofóbicos são geralmente pessoas que estão em guerra com elas mesmas e acabam externando esses conflitos. Para os pesquisadores, homossexuais que vivem em casas controladoras sentem medo de perder o amor e a aprovação dos pais caso admitam atração pelo mesmo sexo, por isso negam ou reprimem a si mesmos este desejo. Ou seja, de acordo com a pesquisa, a homofobia e a agressividade podem ser reação de quem se identifica com o grupo, mas não aceita o fato.


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terça-feira, 20 de março de 2012 | 01:07 | 1 Comentários

Homofóbicos têm desejo sexual pelo mesmo sexo? Cientistas dizem que sim

Da Super Abril



No caso, a constatação de um estudo lá da Universidade de Georgia, nos EUA. Tudo bem, a pesquisa é de 15 anos atrás, mas, em vista de toda a discussão que tem rolado a respeito do casamento igualitário, da criminalização da homofobia e por aí vai, comentá-la ainda é relevante. “A homofobia está aparentemente associada à excitação homossexual“, apontam os pesquisadores, “que o indivíduo homofóbico desconhece ou nega“.

Antes de tudo, os especialistas perguntaram a homens heterossexuais o quão confortáveis eles se sentiam ao redor de homens gays. Com base nesses resultados, dividiram os voluntários em dois grupos: os que exibiam sinais de homofobia (com 35 participantes) e os definitivamente não-homofóbicos (neste, eram 29, no total). Aí começou o teste.

Todos os homens foram colocados em salinhas privativas para assistir a vídeos “quentes”, de quatro minutos cada: um mostrava cenas de sexo entre um homem e uma mulher; outro, entre duas mulheres; e o último, entre dois homens. Enquanto a sessão se desenrolava, um aparelho, ligado ao pênis de cada participante, media o nível de excitação sexual de cada um. A engenhoca, segundo os cientistas, era capaz de identificar a excitação sexual sem confundi-la com outros tipos de excitação (como nervosismo ou medo).

Eis os resultados: enquanto assistiam aos vídeos de sexo heterossexual ou lésbico, tanto o grupo homofóbico quanto o não-homofóbico tiveram “aumento da circunferência do pênis”. Em outras palavras, gostaram do que viram. Mas durante o filminho gay “apenas o grupo homofóbico exibiu sinais de excitação sexual“, afirma o estudo. Pois é, eles até disseram que preferiam manter distância dos gays. Mas, opa, seus pênis contaram outra história.

Quer conferir o estudo completo? Dá uma olhada aqui.

E vocês, o que acham disso? Lembrando que essa é uma constatação puramente científica, despida de qualquer viés político, hein, gente?


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quarta-feira, 18 de janeiro de 2012 | 20:15 | 0 Comentários

Jesus diria sim ao PLC 122 e ainda faria mais

Por Chico

Fazendo um pouco da retrospectiva de fim de ano em meio das celebrações do natal, não dá pra não comentar um dos assuntos mais abordados ao longo de 2011 no Brasil: o crescimento da homofobia, da violência contra homossexuais e do protagonismo pentecostal na luta contra os direitos LGBTT.

Então..neste Natal, convivi com a seguinte pergunta: Qual seria a posição de Jesus perante o PLC 122 e a luta pelos direitos LGBTT no Brasil??

Comparando com outras situações que Jesus enfrentou ao longo de sua vida, narrada nos Evangelhos, me parece claro que ele apoiaria a implementação do PLC 122, em sua integridade, sem mediações com a bancada fundamentalista. Duas são as justificativas:

1 - Jesus sempre defendeu o amor acima da lei:
O Antigo Testamento, base da religião judaica, tem nos seus livros iniciais, o Pentateuco, a base das leis que regem a comunidade. Estas leis foram escritas no processo de transição da escravidão egípcia para a terra sagrada (Ex, 34). Era um povo nômade, com muita garra, que enfrentaria diversos outros povos, mas que dependia da vida em comunidade (e da fé em Deus e no Pastor Moisés) para seguir seu caminho. Longo caminho por sinal, durando uma geração até a chegada à terra prometida (Dt, 1).

Neste sentido, as leis do Antigo Testamento mesclavam os princípios de Deus com regras comunitárias que, para serem cumpridas, precisavam ser ditas como sagradas. Estas regras comunitárias eram fundamentais para que o grupo caminhasse firme e unido. Eram, portanto regras que levariam o povo â promessa de Deus, mas obviamente estavam adaptadas ao povo nomade, fugindo da escravidão de alguns milhares de anos atrás.

Passados parte destes milhares de anos, Jesus questiona ao longo de toda a sua vida pública a aplicação literal das leis comunitárias da Bíblia (Mt 12, 1 – 4) no Israel de sua época. Sua mensagem é clara: o projeto de Deus é o projeto da vida no Amor, no respeito, na partilha, na comunhão. “Quero Misericórdia, e não Sacrifício” (Mt 12, 7). Em diversas situações Jesus contrapôs-se a regra literal colocando em primeiro lugar a pessoa, a vida comunitária e a construção do Reino de igualdade e fraternidade (Lc 7, 37-48; Lc 18, 10-14; Mt 5, 1 – 11).

Hoje, boa parte das leis escritas na Bíblia, já não são mais tratadas como verdade absoluta por serem fenômenos biológicos ou da natureza. As mais famosas são a exclusão da mulher durante a menstruação (Lv 15, 19) (uma questão de saúde pública para o povo nômade do Egito) e a condenação de exclusão em virtude da lepra (Lv 13). Afinal, hoje os sacerdotes não precisam ser médicos!!! Ou seja, não é mais necessário a religião para explicar estas questões e orientar o povo. A religião fica mais livre para atingir seu fim: orientar os princípios de uma vida na sua integridade.

Do mesmo modo, se vivesse nos dias de hoje, ao perceber que a sociedade busca excluir pessoas, grupos sociais de seus direitos, se justificando em interpretações literais e pré-conceitos que fogem do projeto de Deus, Jesus não teria dúvidas na defesa do PLC 122 e da condenação da hipocrisia dos principais defensores da homofobia.

Mas, insistem alguns, e as condenações explícitas ao homossexualismos escritas na Bíblia? Muitas delas inclusive no Novo Testamento, ou seja, após Jesus Cristo?

Não é possível entrar em muitos detalhes da exegese bíblica neste momento. Porém de forma resumida, podemos dizer que:

a) O povo de Deus do Antigo Testamento (aquele povo nomade de milhares de anos atrás) ainda convivia com regras comunitárias bem distintas das de hoje: aceitava a escravidão (Ex 20, 17; Dt 5, 21), a mulher deveria ser submissa ao homem, a poligamia masculina era aceitável (Dt 21, 15 - 17), mas a feminina não (Dt 22, 16), etc. Se hoje negamos a muitas destas "leis", porque não negar também a homofobia? Onde há conflito com a Lei e o amor de Deus aí ao defender a criminalição da homofobia?

b) No Novo Testamento, as passagens estão restritas ás cartas de São Paulo, sendo a única inferência direta o texto aos Romanos (Rm 1, 18-32), o mesmo que mostrou a Pedro e outros discípulos que a mensagem cristã não deveria ficar restrita aos judeus, mas a todos os povos. Ao sair para evangelizar especialmente nos territórios dominados por Roma, Paulo buscou dialogar com os trabalhadores e o povo pobre escravizado. As condenações morais que faziam, diziam respeito à prática da elite grega e romana. E sabemos que o homossexualismo era até mais que aceito na Roma dos patrícios. Assim, ao condenar o homossexualismo, Paulo condenava na verdade a vida opressora dos patrícios e líderes romanos, que largavam seu povo. É uma condenação semelhante a que fazemos hoje ao consumismo, ao hedonismo e a concentração de riqueza.

Se boa parte das religiões superou o atrito com as ciências biológicas e os fenômenos da natureza, muitas delas ainda precisam se livrar dos dogmas morais, escritos em outras época, para entender o importante significado da mensagem cristã na atualidade.

2 - Jesus sempre esteve ao lado dos oprimidos pelo sistema:
Assim como condenava as leituras literais da Bíblia que justificavam a opressão e o ódio, Jesus também sempre tomou partido quanto as situações de Morte provocadas pelo contexto social, político e econômico que vivia seu povo (Mc 11, 15; Mc 12, 14-17). Não era a toa que procuravam matá-lo. E Jesus, ao tomar partido desta situação, colocava-se ao lado daqueles que sempre eram os oprimidos do sistema. (Lc 5, 27-31; Jo 8, 1- 9). Não existia, por parte de Jesus, nenhuma condenação moral, mas sim um trabalho para promover a vida, a dignidade e a luta conjunta.

Neste ano de 2011, vimos o crescimento da violência fruto do ódio, do pré-conceito e da ganância humana. Indígenas e homossexuais foram vítimas crescentes do processo de arrogância e ódio ao diferente. Os fatos, há muito, já deixaram de ser isolados e tornaram-se um problema social. Neste sentido, assim como com todos os(as) excluídos(as) de sua época Jesus se colocaria ao lado da luta indígena e LGBTT, por entender que é assim que mudamos a face e o mundo onde vivemos. Jesus entenderia que demarcar as terras indígenas, e aprovar o PLC 122 são elementos fundamentais para combater o pré-conceito, as situações de morte, de ódio e de ganância e, assim, promover a vida.

3 – Outras ações:

Porém, com mais certeza ainda, Jesus não limitaria sua atuação a uma simples mudança nas leis. Ele, mais que ninguém, sabe como é necessário valorizar cada ser humano em especial. Assim, sua atuação iria para além do PLC 122. Destaco ao menos duas ações que imagino que Ele nos desafia:

a) Respeito com todas as crenças e formas de diálogo com Deus: Deus não está inscrito em uma religião. Ele dialogo com cada povo conforme sua cultura e cada ser conforme sua própria individualidade. O sentido deste diálogo não é outro senão a promoção da vida, em sua integralidade, individual, comunitária, coletiva e social (Jo 10, 10). Assim, o respeito às diversas manifestações culturais e religiosas de promoção da vida, é fundamental numa sociedade laica e que preza pela diversidade, igualdade e respeito.

Nesta mesma linha, Jesus jamais alcunharia com termos excludentes os fiéis pentecostais. Ele sabe que, assim como nos terreiros do Camdoblé e da Ubanda, onde se utiliza da tradições afros para dialogar com seu povo, Deus também promove a vida e resgata a dignidade de milhares de pessoas nos cultos e missas pentecostais.

Mas, Jesus com certeza condenaria padres, bispos, pastores, líderes de qualquer religião que, ao usar o nome de Deus, pregue o ódio, a exclusão e a ausência de amor. Se Jesus fez isto em seu tempo (Mt 23), também faria hoje. Mas sempre respeitando a religiosidade e a cultura popular. Assim, Jesus defenderia que o PLC 122 tem que valer também para dentro das Igrejas, pois a homofobia em nada tem a ver com a religião e, quanto mais elas se afastarem, melhor será para a própria religião.

b) relações humanas e de amor, ao invés de pré-conceitos: Jesus inovou e quebrou os pré-conceitos de sua época ao expressar seu amor e afeto às pessoas que o cercam. Tirou a mulher de sua condição submissa e não se intimidou inclusive em demonstrar maior ligação e afeto a um discípulo que a outro (Jo 21, 20). Ao condenar os líderes religiosos e políticos da época, Jesus voltou-se para o povo, buscou entender a vida e os sentimentos de cada um(a). Era assim, ao promover o amor e misericórdia, que realizava seus milagres. Quando ele mesmo errava, reconhecia o erro e aprendia com o povo (Mt 15, 22 –28)

Jesus sempre soube que de nada adianta leis sem a prática e a vivência cotidiana. Foi um dos primeiros educadores populares da história. Como educador popular sabe que a verdade não se encontra nos livros estancados para interpretação de poucos, mas sim, e ainda que orientado pelos livros, na vivência cotidiana e comunitária para a promoção da vida, da justiça e da igualdade.

Na época de Jesus não existia a escola formal de hoje. Em vivendo hoje, por ser um educador, Jesus com certeza entenderia o papel da Escola como educadora e produtora da vida. Saberia da importância da educação na transmissão de valores e princípios. Assim, ao defender que as relações humanas se prezem pelo amor, e não pelo pré-conceitos, Jesus defenderia sem sombra de dúvidas o desenvolvimento de diversas iniciativas visando o respeito às diferenças ao invés de se impor uma verdade absoluta, a busca de relações afetivas livres ao invés das relações que prezam pelo ódio, pelo orgulho e sentimento de posse. É com leis e com a prática que se combate a homofobia e o conjunto de pré-conceitoe e formas de opressão. Esta prática tem que ser vivenciada nas escolas, nas igrejas, em cada espaço de nossa sociedade. Uns chamam isto de Kit-anti homofobia. Mas, com certeza, Jesus, nos dia de hoje, iria além.

Que o Grande Espírito, o Deus da Vida ilumine os povos em luta por justiça, respeito e igualdade neste ano de 2012. Amém,. Axé, Awiri. Aleluia!

Francisco Carneiro De Filippo (Chico) é cristão; economista e militante do PSOL.


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quarta-feira, 11 de janeiro de 2012 | 01:18 | 1 Comentários

A hipocrisia que ameaça o Vaticano

Por Alessandro Melchior
Papa Bento XVI (Foto: Divulgação)Papa Bento XVI (Foto: Divulgação)
Não causou surpresa a recente declaração do Papa Bento XVI sobre o casamento gay, proferida no Vaticano e divulgada por centenas de veículos de comunicação no mundo todo. Em pronunciamento de ano novo feito para representantes de quase 180 países na segunda-feira, 09 de janeiro, Joseph Ratzinger disse que o casamento gay é uma das várias ameaças atuais à família tradicional. Segundo o Papa, a união entre pessoas do mesmo sexo “ameaça a dignidade humana e o futuro da humanidade”.

Trata-se de mais uma ofensiva do conservadorismo do Vaticano que adquiriu, sob a gestão do ex-cardeal de Munique, sagrado Papa em 2005, contornos mais definitivos. Essa nova onda de ataques tem na mira o avanço dos direitos de homossexuais e a cooptação para as hostes católicas de quadros descontentes de Igrejas mais avançadas, como a Anglicana.

Nos Estados Unidos, o arcebispo de Nova York, Timothy Dalan se tornou um dos principais críticos do avanço da agenda da cidadania LGBT no Governo Obama, ameaçando inclusive precipitar um conflito nacional, com o Governo do democrata, impulsionado pela Igreja Católica. Como recompensa, Thimoty será sagrado cardeal pelo Papa, em fevereiro.

No Brasil, após a decisão do Supremo Tribunal Federal, em maio de 2011, que equiparou as uniões estáveis entre pessoas do mesmo sexo às uniões entre heterossexuais, a CNBB, Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, reunida em sua 49ª Assembléia Geral, afirmou que a união entre pessoas do mesmo sexo não se equipara à entidade familiar, entendida pela Igreja como a união entre homem e mulher. Ainda durante a assembléia, ocorrida em Aparecida, interior de São Paulo, a CNBB se adiantou ao líder da Igreja, afirmando que essa equiparação descaracteriza a identidade da família e ameaça a estabilidade da mesma.

Cooptação
Recentemente, no final de 2011, três bispos da Igreja Anglicana converteram-se para o catolicismo. Espera-se para a Páscoa a ordenação de cerca de 50 sacerdotes, que estão abandonando o anglicanismo. Trata-se de um duro golpe na estrutura da Igreja Anglicana dado pelo Vaticano, visando a cooptação de quadros conservadores, descontentes com a Igreja inglesa pela ordenação de sacerdotisas e a nomeação de bispos homossexuais. Assumidos.

A estratégia do Vaticano foi formalizada em 2009, quando Bento XVI aprovou documento facilitando a conversão de autoridades religiosas anglicanas ao catolicismo, permitindo a manutenção de algumas tradições, como a existência de sacerdotes casados. O anúncio foi feito pelo cardeal William Levada, substituto de Ratzinger como Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, órgão que sucedeu o Tribunal da Santa Inquisição e que fora dirigido por Ratzinger, antes de sua nomeação como papa.

Contraponto
A fala de Bento XVI vem logo após discurso do Secretário Geral da ONU, Ban Ki-moon no qual o representante das Nações Unidas, convoca governantes, educadores e lideranças a combater a homofobia. O discurso de Ban Ki-moon foi proferido em 08 de dezembro de 2011, em um evento em Nova York, sede da arquidiocese de Thimoty Dalan, sobre discriminação e violência com base na orientação sexual e identidade de gênero.

Em 17 de julho de 2011 o Conselho de Direitos Humanos da ONU aprovou resolução sobre a existência de leis discriminatórias contra LGBT em diversos países do mundo. A resolução foi apresentada pela África do Sul, em conjunto com Brasil e mais 39 países.

Para onde caminha a Igreja?
Os novos rumos da Igreja Católica, sob o papado de Joseph Ratzinger, aquele que proferiu voto de silêncio ao sacerdote brasileiro Leonardo Boff, quando Prefeito do novo Tribunal do Santo Ofício, apontam para uma Igreja cada vez mais distante de suas bases e dos avanços da sociedade. Essas opções políticas não permitem vislumbrar uma recuperação da perda de respeito e, principalmente, de fiéis, que a Igreja de Roma vem sofrendo há décadas.

Esse direcionamento da Igreja, de ampliar a ofensiva contra os direitos humanos e importar quadros reacionários de outras organizações religiosas aponta no sentido contrário ao de reconhecer os próprios atos que realmente ameaçaram a humanidade, como a Inquisição, o apoio à escravidão e os acordos com Adolf Hitler na Alemanha Nazista. De ameaças à humanidade, como se sabe, a Igreja entende bem.

O avanço dos direitos LGBT e o casamento gay, inversamente do que diz o Papa, só ameaça à hipocrisia da própria Igreja, na medida em que a Santa Sé teme ver uma debandada geral de seus bispos e padres para fora do armário.

Alessandro Melchior é Conselheiro de Juventude da Presidência da República pela ABGLT


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