terça-feira, 19 de julho de 2011 | 17:14 | 3 Comentários

Entrevista com Sargento Fernando

Por Guto Angélico, exclusivo para o PolíticaAtiva.

1- Você e o Sargento Laci foram os primeiros militares brasileiros a se declarem gays publicamente o que de certo modo foi um avanço e gerou na época bastante repercussão . Inclusive sua prisão. Como foi esse acontecimento?
Procuro ser muito franco com relação a toda esta exposição de nossa relação homoafetiva que já havia mais de dez anos. Nosso ato foi sem dúvida uma forma de resistência ao ódio, mas deve ser encarado sob o ponto de vista racional pela sobrevivência. Não tínhamos noção de que tudo aquilo valeria por todo um histórico de luta pelos direitos dos homossexuais. Não éramos ativistas e nem tão pouco tínhamos noção de qual importante era nosso ato, isto só o tempo nos fez entender.

2- O que te levou a assumir publicamente sua orientação sexual? Você acredita que sua posição e atuação encorajou outros gays militares a fazerem o mesmo?
Vivíamos uma intensa perseguição política. A ocasião atuava como gerente de um sistema de saúde dos militares – FUSEx – Fundo de saúde do Exército, quando me deparei com um esquema generalizado de corrupção. Fui ameaçado por contrariar interesses econômicos do cartel que funcionava no hospital militar em Brasília e a forma encontrada para superar minha intransigência a tal absurdo [corrupção], foi tentar me desacreditar através da exposição generalizada a autoridades ligadas a justiça militar – particularmente, usando-se para tal da informação de que se tratava de um homossexual. Foram dois longos anos de perseguição. O histórico remonta o ano de 2006. Os constrangimentos envolviam prisões imotivadas e sequencialmente uma transferência imotivada para São Leopoldo/RS. Laci foi também transferido para Osasco/SP. Fui ao Ministério Público Federal. A investigação concluiu que havia perseguição política e homofóbica. Um general e mais meia dúzia de outros militares foram processados, mas, em vez da perseguição recuar, ela recrudesceu. Para o Exército, mas precisamente para cúpula institucional, pouco importa se o militar está ou não correto em suas argumentações. Há uma recalcitrante cultura em se tentar preservar a chamada hierarquia e para isto os escrúpulos são dispensados – É inadmissível crer que um Sargento possa denunciar um general corrupto. E, sendo este Sargento homossexual o caso será tratado como agravante. Após terem nos tornado inimigos institucionais, não havia outra saída a não ser a que ensejou em nossa entrevista a revista Época.

3- Como foi sua descoberta sexual? Ao entrar no exército, você ainda não sabia realmente a sua orientação sexual ou veio com o tempo durante o período em que conheceu seu parceiro Laci?
Na verdade tinha entendimento de que gostava de homens, muito mais do que de mulheres embora sempre tenha namorado meninas, guardei este sentimento até minha total aceitação. Aquele sentimento me sufocava, sofri muito até entender que não poderia mais fugir. Conto este e outros detalhes no livro: “Soldados não choram”, Ed. Glogo Livros, obra de minha autoria.

4- Recentemente a imprensa noticiou que vocês estão movendo um processo contra a Rede Tv e a apresentadora Luciana Gimenez por conta de um vídeo apresentado no Superpop em 2008. O processo realmente ocorreu? O que os motivaram a mover essa ação?
Sim. O processo corre na vara cível do tribunal de justiça do estado de São Paulo. Temos plena convicção de que a entrevista em si foi uma grande armadilha. Algo previamente combinado para que o Exército pudesse agir de forma deliberada com total arbitrariedade para assim ensejar em grande audiência naquela madrugada do dia 4 de junho de 2008. Mas, toda maldade se materializou quando da criação e exposição da sátira intitulada: “Humor em edição extraordinária – Sargentos gays” que ainda se encontra na rede mundial, no site youtube.

5- Você lançou o livro "Soldados Não Choram" – a vida de um casal homossexual no Exército do Brasil . Qual foi aceitação do público? Foi positiva ou as pessoas ainda tem receio em tocar em assuntos tidos como tabu?
O livro se tornou Best seller, uma referência na área. Não se pode crer que se trata de um relato restrito a violação de direitos humanos contra homossexuais. Meu companheiro foi estupidamente torturado na cadeia - um crime de lesa humanidade tão presente nos quartéis.

Sem dúvida esta nossa luta pela sobrevivência servirá para que casos assim não voltem a ocorrer. Hoje analisamos alguns projetos para que a história seja retratada num filme.

6- Há pouco tempo foi a aprovada a União Estável e esperasse a aprovação da União Civil, além disse há os polêmicos Kits Anti- homofobia . Como você avalia esse momento político do nosso país. Você considera importante que os LGBTs estejam engajados na política?
Acredito que só podemos tomar as rédeas de nosso destino se dermos nossa contribuição. É importante termos pessoas sensíveis a causa lutando por nós, mas, é de fundamental importância que tenhamos representantes natos. Pessoas LGBTTTIs, devem se ater a necessidade de que tenhamos representatividade nas casas legislativas, só assim, nossa voz se fará valer. Até lá teremos que conviver com as sobras. Ao passo que a decisão do Supremo me deixa feliz ela me faz refletir o quão somos vulneráveis. Este tipo de entendimento deveria ser regra e nunca exceção ainda mais num país que tem pregado ao mundo, “absoluto respeito à dignidade humana”. Uma propaganda realmente duvidosa quando nos deparamos com tantos crimes de ódio contra homossexuais sem que nada seja feito, sem que o governo realmente se articule com a maioria que detêm no congresso para buscar mudar esta realidade, aprovando, por exemplo, o PLC122 em sua integralidade.

7- Se você ficasse frente a frente com o Jair Bolsanaro e tivesse direito a uma única pergunta, o que perguntaria?
Não tenho o menor interesse em ficar frente a frente com este sujeito. Para mim é desprezível e digno de pena pela homossexualidade internalizada que carrega. Parece ser um fardo bastante pesado, a ponto de desejar tanto à total extinção daqueles que podem representar a exposição de sua condição.

8- Além de atuar no Grupo Tortura Nunca Mais de São Paulo , você é um dos fundadores do Instituto SER que protege vitimas de crimes de ódio. Como é sua rotina?
Atuar em prol da dignidade humana não é nada fácil. Requer voluntariedade, vocação e, sobretudo amor ao que se predispôs. No caminho surgem inúmeras razões para se desistir, mas, toda vez que se recebe apoio, carinho, e solidariedade – sentimentos externados com total emoção se percebe o quão grande e importante é a tua missão.
Vivo entre Brasília e São Paulo numa agenda agitada que vezes outras requer minha visita a outros estados da federação.

9- Nós do Política Ativa gostaríamos que você mandasse uma mensagem para o nosso público.
Somos fruto de nossa resistência. Nunca vitimas. Nossos atos dirão sempre a que viemos. Se expectadores ou verdadeiros autores desta nossa historia no planeta. Lutar por nossa dignidade representa em menor ou maior escala buscar mudar o mundo para que se torne um lugar mais justo, digno e livre do preconceito.


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3 comentários:

Gustavo - SP disse...

Parabéns pela entrevista, já era um fã do Sargento e agora mais ainda, parabéns ao Guto que sempre arrasa e a coluna do site que ficou maravilhosa

Carlos Paulo disse...

adoooorei

Anônimo disse...

nossa, além de lindo é inteligente, pena ser casado