terça-feira, 9 de agosto de 2011 | 14:34 | 17 Comentários

Aceitação e respeito.

Difícil ler este monte de porcaria a que somos obrigad@s cotidianamente. Haja paciência, olhos e estômago. É família que vamos destruir, é criancinha que vamos comer, é igreja que vamos invadir para casar, é escola que vamos transformar em centros de lavagem cerebral! Tudo isso por querermos apenas amar em paz, constituir nossas famílias, ter nossos filhos, com gatos, cachorros, impostos e contas a pagar. Ah, mas desta parte dos impostos e contas que pagamos ninguém lembra!Nenhum homofóbico defende que tenhamos desconto no imposto, uma vez que temos diminuição de direitos. E a equação seria tão simples: menos direitos, menos obrigações. Obrigações iguais, direitos idem.

Mas a bem da verdade, vamos lá, vamos declarar em voz alta: não é só o que queremos mesmo não! Casa, filhos, casamento... Não é não. Isso é pouco para o que queremos. Queremos mais, muito mais. Queremos liberdade e autonomia. Namorar, beijar e trepar (sim, trepar!) muito, sem que ninguém venha nos rotular de promíscuos. Queremos fazer nosso carnaval, sem que ninguém diga que somos um bando de alienados.

Queremos lançar moda (e efetivamente sempre lançamos), sem que ninguém diga que é coisa de viado, coisa de sapatão, com desprezo – muitas vezes por despeito – mas com admiração corajosamente assumida: que sapatice mais linda, que viadagem mais graciosa! E que se assumir LGBT ou a simpatia pela comunidade não requeira mais coragem. Que seja tão natural quanto dizer que meus olhos são castanhos e que lindo o meu Rio de Janeiro. Mas mesmo com tudo isso, que é tanto e tão pouco, há algo do que não fazemos a menor questão: de sermos aceitos, de sermos tolerados. Tolerar é ter paciência com algo, é ser indulgente. E não queremos indulgência. Aceitar é concordar com alguma coisa, é consentir. E não queremos consentimento. Dúvidas? Fale com aquele carinha fácil e de poucas palavras, o Houaiss, e confirme o que estou dizendo.

Das pessoas que nos importam, queremos amor, das que não importam, queremos respeito. E somente por este respeito é que devemos ter nossos direitos assegurados. Vejam bem: a questão não se trata de merecermos, pedirmos ou querermos direitos. Nós TEMOS direitos, afinal devemos ser iguais perante a lei.

Somos todos cidadãos brasileiros e assim temos de ser tratados. Quando há respeito, as pessoas passam a ocupar outros espaços sociais, tornam-se personagens diferentes, em tramas diferentes, vistos de forma diversa e, com isso, nem sequer precisam ser aceitos, passam a fazer parte da paisagem, do cotidiano, do enredo. Ou alguém pensa: “puxa, eu não consigo aceitar os canhotos”? Então, jura que você quer ficar pedindo aceitação? Jura que você vai se preocupar com o que pensam sobre você? Não, não seja vítima, seja agente. Não se sujeite a opressões, a maus-tratos, a arbitrariedades; não sucumba diante de palavras ou sentimentos alheios e não se permita sofrer qualquer prejuízo. Seja quem atua, quem produz o fato, quem desencadeia ação! Venha e chame seus amigos: vamos fazer a revolução de nossa autoestima, de nossa inserção social, pela palavra e por nós mesmos! Vamos!


É DE INTEIRA RESPONSABILIDADE DOS COLUNISTAS A EXPRESSÃO DE IDEIAS E OPINIOES VEICULADAS NESSE SITE!

17 comentários:

Antônia disse...

Parabéns. Ivone Pita muito bom texto adorei..

Renata Valente disse...

Amiga, não errei, Parabéns Texto maravilhoso, disse tudo que pensamos e muito mais, é uma guerreira que me orgulho muito, sua dignidade, sua sabedoria. É uma intelectual, com muito amor no coração, Deus abençoe sempre este teu jetio de pensar e ajudar a tantos que precisam, fora os animaizinhos que ainda têm tempo para se dedicar com todo amor, és uma bem aventurada.. te amo Ivone.

Roberto Muniz Dias disse...

Que texto magnífico Ivone. Bem,por onde começar?
A caça as bruxas foi lançada recentemente, mas como o brasileiro tem memória curta, o discurso, graças a deus foi rechaçado por essa desimportância que damos notoriamente às páginas envelhecidas dos jornais de ontem. Mas parece persistir no inconsciente essas ideias de que ainda podemos fazer mal. Quem mais mata é hétero, quem está no alto escalão do governo atual e que rouba são homens. Quem bate em mulher e mata gays são héteros. Alguém tem dúivda de que faz mais mal são os héteros? Sejam os declaradamente heterossexuais ou os enrustidos?
O que fazemos de mal: A parada gay? Uma festa gay? Em que pese a concordância ou não com a política dessas atividades; não se faz nenhum mal, não há intenção de provocar o outro. Somos por demais democráticos, pacíficos. "Nossos" espaços têm se tornado cada vez mais abertos aos heterossexuais, mais simpatizantes. Adotamos crianças e tiramos da assistência social várias delas abandonadas por famílias héteros (mãe desnaturadas). Vamos contabilizar quantas crianças voltam para a adoção quando famílias gays as adotam? Vamos fazer isso? Vamos colocar mais Jean Wyllis nas bancadas do Congresso, vamos experimentar colocar um gay na presidência! Vamos ver que mal maior podemos fazer se esse espírito de festa e pacificidade forem incorporados definitivamente a nossa sociedade pelas vias normais.
Vocês ainda têm dúvida de que podemos fazer mal a alguém?

luciana disse...

Sinceramente Ivone. Vcs se importam desses idiotas q dizem q vcs comem criancinhas?Ou vc falou comer c sentido sexual, daqueles q associam vcs a pedófilos? Sinceramente, acho esses comentários tão surreais! Gostaria mais de saber o lado de vcs..pq eu sou contra a homofobia, mas não faço idéia da forma e da intensidade com q estes homofóbicos conseguem atingir vcs.Me indigno e busca ser ativista pela igualdade entre tdos, mas normalmente me indigno mais com ataques que os gays sofrem, espancamentos e por não quererem q vcs casem,adotem filhos..estas coisas. Se somos iguais, embora diferentes, temos que ter direitos guais! Agora, ñ sabia q comentários rídiculos afetavam vcs. As coisas tão mudando tanto q logo será discriminado e mal visto quem enxergar os gays como diferentes.Bjin, Luciana

http://criancasabusadas.blogspot.com/

Laços Eternos disse...

Radical como sempre! Revolucionária, se acha sempre dona da verdade. Sem contar que gosta de semear discórdia por onde passa.

Wagner Nunes disse...

Ivone, toda vez que entro aqui para ler seus textos já sei que algo em mim vai mudar, logo depois de ler me sinto mais preparado para continuar a nossa luta de todo dia "rsrs" Parabéns e obrigado por compartilhar essa visão maravilhosa que você tem.

Ivone disse...

LUCIANA,
inicio a resposta com a pergunta com que vc abre seu ótimo texto sobre adoção por casais homoafetivos: "Qual o mal que um casal gay pode fazer a uma criança?" Uma das acusações é terrível: que abusaríamos das crianças, uma vez que nossa doença é um misto de pedofilia com impulso sexual irrefreável. Esta é apenas uma das acusações.
Quanto iniciei a leitura de seu texto foi a primeira coisa em que pensei, na acusação de pedofilia. Ainda hoje, vide declarações de Myrian Rios, associação homossexualidade à parafilia, especificamente, pedofilia.
Se nos importamos com os idiotas? Muitos de nós se importam, ficam magoados, de sobressalto, tamanha é a quantidade e a (péssima!) qualidade da agressão. Quem dera dissessem apenas que vamos colocar criancinhas no forno, tal qual velhos comunistas, tamanha irrealidade seria apenas risível e não tão cruel e estigmatizante.
Sobre a profundidade com que atingem, imagine para um tio ou tio que não tem permissão para levar o sobrinho para passear? Adivinha no que logo este tio ou tia pensa? Ou quando um gay encontra pela rua um menino-criança, lindo, meigo, doce, e pensa em fazer alguma brincadeirinha com ele? Imagine o que ele pensa que vão pensar? Nem todos nós pensamos assim, claro, mas uma parte vê sua expressão afetiva cotidiana tolhida pelos olhos e dedos, quando não pontas de tênis e sapatos, lhe apontando. E é triste e forte assim.
Beijos,
Ivone.

Ivone disse...

LAÇOS ETERNOS,
obrigada por me chamar de radical e revolucionária, são dois grandes elogios.
Beijos,
Ivone.

Ivone disse...

ANTONIA,
obrigada por suas palavras. Como eu disse antes: vc é sempre um amor!
Beijos,
Ivone.

Ivone disse...

RENATA,
eu disse antes e repito: obrigada por seu apoio e obrigada por suas palavras. Eu espero realmente conseguir passar através dos textos toda nossa indignação, nossas dores e também o que desejamos para nossas vidas. Que bom, então, vc ter dito que neste eu consegui.
Beijos,
Ivone.

Ivone disse...

ROBERTO,
as bruxas - coitadas! rsrs - agora somos nós. Somos o mal da vez, que precisa ser combatido, justamente pelo que vc aponta: a falta de uma memória mais ampla e de melhor qualidade, que avalie todo o contexto de forma sincrônica e diacrônica. Mas como vc também diz de forma bela: "Vamos ver que mal maior podemos fazer se esse espírito de festa e pacificidade forem incorporados definitivamente a nossa sociedade pelas vias normais"! E não tenha dúvida de que ainda veremos!
Beijos,
Ivone.

Ivone disse...

WAGNER,
que alegria imensa em ler isso! Pois esta é exatamente minha pretensão: promover reflexão e força! Mais ânimo para continuar lutando! E eu sou muito grata por poder compartilhar e por receber este retorno tão bom e generoso. Vcs, sem dúvida, têm partilhado muito comigo e eu vou tentando aproveitar o quanto posso! =)
Beijos,
Ivone.

Simone Costa de Lima disse...

É isso querida Ivone, VAMOS!!! Sejamos AGENTES de nosso próprio destino... Belo e estimulante texto.

Ivone disse...

SIMONE,
vc e Antonia são uma dupla que, francamente, nem sei como vcs fazem para suportar tanta generosidade junto! rsrsrs Vcs são muito carinhosas e eu agradeço muito o apoio das duas.
Beijo grande!

Julio Marinho disse...

De novo né? de novo um texto lindo, de novo um texto maravilhoso, de novo um texto necessário... de novo um texto, com a grife Ivone Pita. Fazer o quê? Só nos resta admirar e admirar e admirar e...

RICARDO AGUIEIRAS disse...

Nossa, essa vida corrida nos deixa escapar coisas que julgamos primordiais. Esse texto seu, brilhante como sempre, eu não tinha visto ainda... agora vi e me redimi. Como o Wagner falou acima, você provoca mudanças, abre portas e cria espaços, tanto de luta como de acolhimento e tudo junto e misturado... Ando um pouco medroso e pessimista, por causa do crescimento do fundamentalismo e da falta de opções, mas você, como sempre, divide a sua coragem maior que o Everest, generosamente...risos... Feliz por você existir!
Ricardo Aguieiras
aguieiras2002@yahoo.com.br

LUNNA TBG disse...

Mais um belo texto, parabéns querida por exprimir em palavras, tão bem ,os nossos pensamentos.