sexta-feira, 26 de agosto de 2011 | 02:17 | 14 Comentários

Jean Wyllys fala sobre Che, Dilma, sobre o Congresso Nacional e sobre religiosidade

"Todos meus compromissos estão sendo mantidos pela luta dos direitos humanos" diz deputado.

Jean Wyllys de Matos Santos, nascido em Alagoinhas no dia 10 de março de 1974, é professor, jornalista, escritor e político. Eleito em 2010 deputado federal pelo PSOL do Rio de Janeiro, Wyllys é um grande defensor dos direitos humanos em sua carreira política, e, em seu primeiro mandato, está entre os três políticos que mais bem representaram a população no Congresso Nacional este ano. A avaliação é dos profissionais de imprensa de 55 veículos, que cobrem política e que votaram na primeira etapa do Prêmio Congresso em Foco. Em duas etapas, o prêmio será definido pelo internauta, em votação que começou na última segunda-feira (22).

Em entrevista exclusiva ao Gay1 para o colunista Roberto Dias, Wyllys fala sobre a polêmica da foto para a revista "Rolling Stone" e a frase: "Já escrevi meu nome na história" e muito mais.

Gay1- Na última entrevista à Rolling Stones, você tirou fotos usando a indumentária do Che Guevara, por que não usar referências de Harvey Milk ou de Luiz Mott? Por que Che Guevara?
Jean Wyllys - Eu esperava sair como Jean Wyllys, mas a revista tem, historicamente, como procedimento, transformar os seus entrevistados em personagens. Eles tinham duas sugestões: o Harvey Milk e o Che Guevara. Escolhi o Che pela intenção do jornalista de abordar meu mandato como uma cruzada, uma revolução, e também por ser um ícone pop que foi monopolizado por uma mentalidade machista. A própria revolução cubana sacrificou os homossexuais, mandou os homossexuais para o paredão, considerava-os antirrevolucionários - a revolução promoveu isso. Da mesma maneira que o Luiz Mott chamou a atenção para a sexualidade de Zumbi dos Palmares provocando a ira do movimento negro, eu quis provocar a esquerda brasileira posando de Che Guevara. Sem falar que o Che é uma figura pop mundial, fácil de identificar. O Harvey Milk, não. Ele é uma figura muito nossa, da comunidade LGBT.

Veja comparação da foto da revista com a foto do "Che"


Gay1- E se tivesse a oportunidade de escolher uma personalidade, qual seria?
Jean Wyllys - Eu escolheria o Che Guevara. Nós não temos grandes heróis gays que eu pudesse encarnar e manter o contexto político que a matéria tem e que eu queria dar. A brincadeira em torno do Che foi interessante, pena que houve uma infrainterpretação por um lado e uma superinterpretação de outro lado. Pareceu-me tão óbvio que ali o objetivo era o de provocar as “esquerdas” brasileiras no momento que a gente está para instalar a comissão da verdade e recuperar aquele passado da ditadura militar. O Che teve um papel fundamental no fortalecimento das esquerdas na clandestinidade. Por que não recuperar também a atuação dos gays naquele período, que está uma coisa silenciada? Como os aparelhos de resistência se comportaram em relação aos homossexuais? Será que eles herdaram a postura da revolução cubana de achar que homossexuais eram antirrevolucionários, como aconteceu, por exemplo, na Argentina, onde os aparelhos de resistência não queriam filiar homossexuais porque achavam que eles cediam facilmente à tortura.

Gay1- A sua luta é solitária, dizia a revista? Você acha que sua luta é solitária?
Jean Wyllys – Isso não foi uma decisão minha. Foi idéia do editor da revista. Em nenhum momento eu falei que minha luta era solitária. A questão é que sou o único homossexual assumido no Congresso Nacional. Se há outros homossexuais no Congresso, eles estão no armário. Quando você está no armário e silencia sobre sua identidade sexual, ela não existe. A perspectiva do solitário foi nesse sentido. É claro que minha luta é uma continuidade de uma luta que me antecede. No próprio texto eu afirmo que somos filhos das conquistas de Harvey Milk e Harvey Milk é filho das manifestações, das conquistas dos anos 20, dos movimentos gays, do movimento feminista. No Brasil temos o trabalho pioneiro do pessoal do Lampião da esquina, o João Silvério Trevisan. Aguinaldo Silva que hoje tem dado declarações polêmicas, mas é impossível não reconhecer se passado. Temos as próprias constituições da ABGLT, da LBL, dos grupos ativistas de uma maneira geral. Não existiria Jean Wyllys se não houvesse esse povo todo.

Gay1- Temos agora uma presidenta. Você acha que se tivéssemos um presidente gay, as coisas poderiam ser diferentes?
Jean Wyllys- Eu acho que as nossas identidades, a maneira como estamos posicionados na sociedade, interfere nas nossas ações e na maneira como observamos o mundo. O fato de a Dilma Roussef ser mulher interfere na visão que ela tem, na própria constituição das políticas públicas, no andamento e nas escolhas que ela faz. Mas eu acho que não faz uma diferença substancial. A Fundação Perseu Abramo fez uma pesquisa em que constatou que o eleitorado brasileiro é conservador, que não vota - especialmente para cargos majoritários - em candidatos que se digam ateu, que professem religiões de matizes africanas, que defendam a legalização do aborto, da maconha e que apóiem o casamento civil gay. Ele pode até votar num candidato gay, mas que não apoie o casamento civil. Essa pesquisa pode ser falha, mas com informação, com o acesso às tecnologias da informação e com educação oferecida às pessoas, pode ser que esta situação mude. Eu acho que minha atuação como parlamentar vai mostrar que o povo não tem que ter medo em votar em gay, pois ele vai coordenar uma legislatura no mais fiel e autêntico espírito republicano.

Gay1- Ainda sobre a Revista, você falou que escreveu seu nome na História. Você acha que seu trabalho terminou?
Jean Wyllys – Essa frase, na verdade, foi o repórter quem disse. Ele lembrou o papel da senadora Marta Suplicy, pioneira em trazer o assunto para o Congresso, mesmo não sendo ela gay. Isso é histórico. Nesse contexto - de ser o único parlamentar assumidamente gay - o repórter falou de uma luta solitária. Mencionei que já havia ouvido do deputado Reguffe e também da deputada Erika Kokay uma colocação similar sobre minha contribuição como parlamentar. Pensei sobre essa perspectiva e, realmente, eu escrevi meu nome na História, mas não com uma perspectiva arrogante e pretensiosa. Temos a experiência do Clodovil, mas ele não encampou a luta pelos direitos dos homossexuais. Existe uma cobrança que vem de uma patrulha da própria comunidade LGBT. Os heterossexuais entenderam a mensagem da revista. Engraçado que essa patrulha tão crítica e afiada, não está afiada no despertar da consciência política. Eu queria ver estes ativistas na luta pela consciência política, contra a homofobia internalizada, para que, nas próximas eleições, tenhamos uma bancada LBGT.

Gay1- Um partido talvez?
Jean Wyllys – Eu não acho que precise de um partido, de maneira específica. Eu acho que a luta específica dos direitos civis dos homossexuais deve estar ligada a uma perspectiva mais ampla dos direitos civis e liberdades. Não tem como lutar contra o conservadorismo se você não se você não se articular com a luta pelos direitos dos homossexuais, com a luta das mulheres, se você não enfrentar a misoginia, o sexismo, o racismo, a xenofobia, o antissemitismo. A provocação com a foto do Che Guevara é um pouco essa. O movimento deveria estar atento para despertar a consciência. Não fui eleito pelos LGBT’s mas mesmo assim eu mantenho meus compromissos assumidos durante a candidatura. Eu estou lutando por aquilo que acredito. Eu sou professor, jornalista e deputado luto pelos direitos humanos, e o fato de ser homossexual me faz lutar especialmente pelos direitos dos homossexuais. Eu acho que é dessa maneira que a gente avança.


Entrevista em vídeo

Gay1- E a respeito da religião, o que você acha das Igrejas Inclusivas?
Jean Wyllys – Eu acho esse movimento interessante. A religiosidade é quase uma constante antropológica. Todas as culturas desenvolveram as religiosidades que se materializaram em religiões organizadas institucionalmente. Outras não desenvolveram ao ponto de institucionalizar, mas essa relação com o sagrado que tem a ver com medos ancestrais, a consciência da morte, da passagem do tempo, leva a gente a ter uma relação com o sagrado, com o plano extramaterial. Não há cultura sem religiosidade. Portanto, eu diria que ampla maioria dos seres humanos se inclina a ter uma religiosidade. Eu fico feliz que, no ocidente, cuja cultura está sustentada na herança judaico-cristã, as igrejas cristãs abrem suas portas aos homossexuais, porque uma das violências que se pratica contra os homossexuais é negar-lhes o direito de acreditar na divindade de Jesus e de professar essa crença. Antes, as únicas Igrejas inclusivas eram a Umbanda e o Candomblé que abriam as portas, sem preconceitos, para os homossexuais porque eles eram proscritos das religiões tradicionais. Meu afastamento da Igreja Católica se deu por razões óbvias. Embora eu militasse ali com os movimentos da pastoral das comunidades eclesiais de base, por justiça social, pelo direito a terra, não fazia sentido trabalhar para essas pautas, se a Igreja não contemplava a violência que eu mesmo sofria: Eu levei um murro aos doze anos de idade e justamente por que estava me deslocando para uma reunião da pastoral juventude estudantil. Depois de um período de aproximação do materialismo histórico e de uma quase inclinação ao ateísmo, entendi que não podia ser ateu. Tem uma coisa em mim que me leva a crer numa dimensão sagrada, divina. Esse divino sobre o qual me debruço não tem a face beligerante, masculina, do Deus judaico-cristão que foi forjado, especialmente do Deus apresentado e descrito no Antigo Testamento. Recordo de uma canção quando eu era pequeno que dizia assim: “Toda Bíblia é comunicação de um Deus amor, de um Deus irmão!” É nesse Deus que acredito.

Gay1- Qual deles mais toca sua alma: o Jean escritor, o professor, o jornalista ou o parlamentar?
Jean Wyllys- Fiz escolhas na minha vida em que todas as minhas atividades se intercomunicam. A política é comunicação. O trabalho como professor universitário de Teoria da comunicação e Cultura Brasileira é de comunicação. O trabalho do jornalista é de comunicação. O trabalho do escritor é comunicação. Todos tocam minha alma de alguma maneira. Mas de todas essas atividades a mais, digamos, justa, é o papel de professor. Gosto quando o professor e o deputado se encontram e fazem esse trabalho pedagógico que também cabe ao legislador. A palavra aluno, que vem do latim, quer dizer sem luz, então o papel do professor é iluminar. Não com essa arrogância de que sabe mais, pois o professor se constrói também na interação com o aluno. O conhecimento foi fundamental na minha vida. Sem o conhecimento eu não teria chegado até aqui. Eu sou uma pessoa fértil ao conhecimento. Gosto de aprender coisas novas. Cada viagem que faço é menos pelo prazer do turismo e mais pelo conhecimento. Uma das coisas que mais me incomoda por ser famoso é a dificuldade que tenho com as pessoas, porque aonde chego, chega o ícone. E o meu interlocutor, em geral, tem uma relação com o ícone que não abre espaço para o diálogo - envolve o elogio, a admiração. O que mais desejava é que as pessoas me vissem como um ser humano igual a ela e que estabelecesse uma relação de diálogo. Nada mais prazeroso para um escritor do que conhecer pessoas. Agradeço os elogios, mas é difícil pra mim, fico sem graça. Eu sou pisciano – quando recebo um elogio fico todo apatetado.


É DE INTEIRA RESPONSABILIDADE DOS COLUNISTAS A EXPRESSÃO DE IDEIAS E OPINIOES VEICULADAS NESSE SITE!

14 comentários:

Allan Ponts disse...

Gostei muito das perguntas feitas ao Deputado, assim como gostei de suas respostas. Sem querer agradar, sem fazer política em suas colocações, foi direto, sincero, ao ponto de afirmar para a própria fonte da entrevista, que é GAY 1, que não foram os homossexuais que o elegeram. Poderia ter feito uma média neste ponto, mas preferiu a autenticidade, que é sua marca registrada.
Parabéns à equipe GAY 1.
Allan Ponts

Anônimo disse...

Legal a entrevista, mas somente um detalhe infelizmente Che Guevara era homofóbico, e isso poucos sabem! Me parece meio contraditório usar a imagem de alguém que era homofóbico na figura do nosso querido Jean.

sidarta-sp disse...

Parabéns pelas perguntas! E as respostas do Dep. Jean Wyllys como sempre sensatas,cultas e aprofundadas sem dar a ninguem a possibilidade de não concordar. Achei muito interessante sua colocação de que ele não foi eleito pelos GLBTs, o que é uma verdade infelismente. Um dia Harvey Milk,Luiz Mott e Jean Wyllys servirão de exemplo pra todo grupo GLBT. Parabéns mais uma vez pela entrevista...esclarecedora e um estimulo pela luta pelos direitos dos humanos em geral,mas com um foco na defesa dos direitos do grupo GLBT.

Obs:Como já disse tbém não concordo com o uso da imagem do Che Guevara.

Anônimo disse...

http://www.e-jovem.com/revolucaogay.pdf

É verdade que os movimentos de cunho stalinista perseguiram os homossexuais. E que os Partidos Comunistas oficiais que se seguiram ao estabelecimento de Stalin, a partir das décadas de 40, 50 e 60 eram homofóbicos.

Mas é preciso separar o joio do trigo. Por exemplo, o movimento socialista foi um dos primeiros a emcampar a bandeira LGBT.

Quem quiser saber mais, tem o texto bem curtinho. É um livrinho pequeno (umas 30 páginas, acho) que fala do Movimento LGBT e da Luta pelo Socialismo

http://www.e-jovem.com/revolucaogay.pdf

É de um inglês, traduzido para o Português pela Revolutas (uma corrente do PSOL)
;)

Gustavo

Anônimo disse...

mas antes de che ser homofóbico, lutou e morreu por muitos, inclusive gays.

Anônimo disse...

Parabéns ao Dep. Jean Wyllys pela inteligência em abordar tantos assuntos numa entrevista. Sinto-me honrado em tê-lo como representante dos cidadãos LGBTT na luta pelos direitos humanos.
Jean, sou teu fã pelo teu histórico de vida, luta e competência!!!!
Wallace - Brasília/DF

jose disse...

É bom ver alguem que não deixa os conservadores oprimirem usando o nome de Jesus e ao mesmo tempo não concorda que a esquerda,em nome da luta pelo oprimidos,reprima certos grupos.

Renata Valente disse...

Amigos, foi muito bem desenvolvidas as perguntas, cada vez me apaixono mais pelo Jeann Wyllys, e vcs meus amigos do Gay um, são maravilhosos e vão ter muito reconhecimento, porque vocês merecem muito, este trabalho foi simplesmente Fantástico.. amo vcs amigos. bjs

Anônimo disse...

Parabéns pela entrevista!

sds,
Thiago

Débora disse...

Ótima entrevista, contagiante.
Li at´o final sem pausa..

Gustavo disse...

Maravilhosa a entrevista, vídeo ficou perfeito, parabéns ao site!

Augusto disse...

Desculpinha esfarrapada de quem desconhecia a história e não tinha como justificar as críticas da imbecilidade cometida ou não esperava que alguém cobraria isso. O problema é que esquerdista acha "cult" admirar "Che". Se o caro deputado levantou a bandeira dos homossexuais, que ele então lute contra o preconceito, pela união civil, pelo direito de herança e pensão entre os casais homossexuais, lute pelo combate a AIDS, que está meio esquecido, depois da descoberta do coquetel. Agora, posar fantasiado de Guevara, um homofóbico que torturou, prendeu e matou centenas de homossexuais em Cuba junto com o seu companheiro Fidel para provocar as esquerdas, etc, etc. Alguém caiu nessa?
Augusto César - RS

Augusto disse...

Desculpinha esfarrapada de quem desconhecia a história e não tinha como justificar as críticas da imbecilidade cometida ou não esperava que alguém cobraria isso. O problema é que esquerdista acha "cult" admirar "Che". Se o caro deputado levantou a bandeira dos homossexuais, que ele então lute contra o preconceito, pela união civil, pelo direito de herança e pensão entre os casais homossexuais, lute pelo combate a AIDS, que está meio esquecido, depois da descoberta do coquetel. Agora, posar fantasiado de Guevara, um homofóbico que torturou, prendeu e matou centenas de homossexuais em Cuba junto com o seu companheiro Fidel para provocar as esquerdas, etc, etc. Alguém caiu nessa? Um tremendo cara de pau esse Jean!
Augusto César - RS

Augusto disse...

Complementando: ao se vestir de Che, o nobre deputado desrespeitou a memória de todos os homossexuais perseguidos e mortos pela ditadura cubana. Uma tremenda bola fora. Coisa igual aconteceu há alguns anos atrás quando um príncipe da Inglaterra foi a uma festa fantasiado de Hitler e que foi matéria em toda a mídia internacional.
Augusto César - RS