terça-feira, 2 de agosto de 2011 | 13:32 | 29 Comentários

Dodóizinha, eu?! Ressignificar para derrotar

Por Ivone Pita
Homossexualidade ou homossexualismo? Esta discussão sempre recai sobre o segundo sufixo designar de doença. Bom, sendo doença dá pra ver que não é contagiosa, afinal, lá estão papai e mamãe ainda heteros, depois de décadas de convivência. E o que dizer dos meus irmãos: cama, roupa, brinquedos, escola, tudo ali, bem partilhado e embolado e nada: o irmão casado com uma mulher, a irmã casada com um homem. O vírus do homossexualismo não os pegou. A única dodóizinha lá de casa sou eu. É claro que não dá para avaliar o restante da família ou a cada 10, no máximo, vamos encontrar outro infectado! Claro que é brincadeira ou a previdência teria quebrado de tantos aposentados por doença e incontáveis empresas teriam falido com tantos atestados! “Hoje não posso ir, ainda estou com homossexualismo. Sim, sim, certeza absoluta, esta madrugada mesmo um forte sintoma se manifestou’.

Nessa discussão sobre o ismo, alguém sempre explica que o dito cujo também serve para designar outras coisas, por isso poderia se falar homossexualismo. A questão é que quem faz uso do termo homossexualismo, ainda hoje, é homofóbico de carteirinha ou é completamente alheio a estas questões. Sendo um desavisado, aí sim, vale à pena explicar a luta para tirar a pecha de doença de todo um grupo social, através da palavra. Sendo um homofóbico, este tem o propósito de desqualificar e agredir, além de desviar o foco da discussão - perdida desde sempre, se a tentativa de diálogo se dá com uma pedra. Portanto, vamos lutar para que o ismo não manche nossa comunidade, mas vamos também superar o incômodo que esta praga nos causa a cada vez que é mencionada.

A palavra homossexual foi cunhada como protesto à palavra sodomita e heterossexual era quem tinha “atração mórbida pelo sexo oposto”, tudo ali pelo final do século XIX, depois logo tudo se inverte e homossexual é o desviante e o normal é o hetero. Duvida? Google it! O que importa é ver que as palavras vão sendo ressignificadas. Hoje, a oposição entre os sufixos dade ou ismo pode dizer respeito também ao que é individual ou coletivo, assim, é correto afirmar que homossexualidade diz respeito ao indivíduo e homossexualismo ao grupo. Portanto, heterossexualismo neles!

A idéia é ressignificar para derrotar. Veja a palavra sapatão, o que até então era um termo agressivo, pejorativo, usado como xingamento para agredir mulheres ditas masculinas, perdeu sua força e de forma muito simples: as próprias começaram a fazer uso do termo, tomaram para si “o poder da palavra”. Esvaziaram-na do sentido opressor para lhe ressignificar de forma transgressora. Passamos de vítimas a agentes. Não novos algozes, mas agentes. E passar de uma posição a outra é uma grande subversão. Cada um de nós deveria acatar esta ação como exercício diário. Ah, sapatão! Ah, bicha! Ah, mona! É isso mesmo, se alguma palavra lhe incomoda, vá em frente, tome-a para você, se aproprie! Veja como ela deixa de lhe ferir rapidamente. Digo isso com toda propriedade, pois até um tempo atrás, meus cabelos – todos! – quase caiam ao ouvir sapatão dirigido a mim. Sapatão, eu? Sim, eu, Ivone Pita, sapatão, muito prazer. E se for para o bem geral da nação LGBT, diga ao povo que minha individual homossexualidade, de hoje em diante, passa a servir ao nosso coletivo homossexualismo.


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29 comentários:

YON disse...

Parabéns pelo excelente texto, seja muito bem vinda a família Gay1 !

Wagner Nunes disse...

Parabéns novamente... O texto é ótimo e posso dizer que já mudou meu pensamento!
Vou confessar que me sinto desconfortável com o termo “homossexualismo” mas tudo dependo do contexto, quando outro homossexual me chama de “Viado” ou coisa algo do tipo não me sinto agredido (obviamente) agora “Homossexualismo” ainda me fere um pouco, embora sempre leve em conta a questão da “ignorância” de quem esta me chamando assim.
A partir de agora vou começar a trabalhar isso, digo , ressignificar...

RICARDO AGUIEIRAS disse...

Lindo! Perfeito! Um dos legados mais importantes (para mim) e dos mais polêmicos (para muitos) que o histórico e muito importante Grupo Somos de Afirmação Homossexual - o pioneiro, no Brasil, 1978- deixou foi justamente a ressignificação da palavra "bicha", que usávamos como tratamento entre os integrantes do grupo. Convenhamos e concordando: é uma grande transgressão e poder você ou um grupo terem tirado toda a carga de estigma de uma palavra. Se bem que, três décadas depois o conservadorismo e o desejo de assimilação fez muitos gays repudiarem esse termo, infelizmente, entregando-o de bandeja para os homofóbicos o usarem de novo e de novo... como percebi, a luta não tem fim e tem que ser constante. Emocionante, Ivone, você levantar isso. Beijos e carinho!!!

Ivone disse...

WAGNER,
vc é muito fofo! Não ofende, não, né? É sério. Vc é muito bacana, sempre aberto a novas reflexões e não tem receio de expor isso. Para mim é muito, muito bacana mesmo, saber que meu texto faz alguém refletir, repensar as próprias ações e reações, sendo vc, então, melhor ainda! Beijo grande!

Ivone disse...

YON,
muito obrigada pelo espaço, pela oportunidade e pelo apoio e carinho! Obrigada mesmo. Tentarei contribuir o mais que puder! =)
Beijo grande!

Ivone disse...

RICARDO,
que bom poder ler toda a extensão de significado que vc conferiu a meu texto, pois era essa mesma minha intenção. Como é bom encontrar mais um para o "coro da ressignificação". E a luta é isso mesmo: todos os dias, indo e vindo, perdendo e ganhando, mas sem jamais nos darmos por vencidos. Um beijo!

Josi Saldanha disse...

Belo texto! Parabéns!!! <3

Antonia.. disse...

Ivone mais uma vez parabéns,Seu trabalho vem para desde já ambientar o leitor mais cético quanto à gravidade da homofobia em nosso pais, comprovando a dramática e crudelíssima discriminação que são
vítimas os homossexuais,

Luciana disse...

Ivone! Ainda n conhecia seu blog.Como vc escreve leve! Adorei!Qdo vi, tinha chegado ao final do texto e dá vontade de ler mais =) Bj.

Simone Costa de Lima disse...

Uma frase que uso diariamente é "a vida é muito dinâmica", e teu texto fala exatamente disso, da nossa capacidade diária de adaptação. ressignificar e otimizar tudo que a vida nos joga na cara. Adorei tuas colocações, apenas senti falta de MAIS... De agora em diante estarei sempre por aqui, buscando MAIS em tuas palavras... PARABÉNS para todos nós por agora contar contigo na formação de nosso cotidiano, na ressignificação do nosso dia-a-dia. Beijos e sucesso...

Anônimo disse...

Ivone, Adorei o texto! Parabéns! Te admiro muito, garota!

.Zé disse...

Ainda essa semana cliquei no link (naotenhopreconceito) e senti "vergonha alheia" por ler e ver tanta imbecilidade "junta num só lugar". A sorte é que alguns dos comentários para cada "pérola homofóbica" me ajudaram a desopilar o fígado.
Também recentemente, descobri você no face de uma amiga e declaro que foi A descoberta... por seus álbuns, campanhas, suas frases, seus textos, sua opinião sempre expressa com muita objetividade, inteligência, bom humor, coerência... enfim... você me faz sentir "orgulho alheio". Amei o texto. Obrigada !!! :)
Ramani Silva

Locust a.k.a. myxed mode disse...

muito bom, adorei!

Ivone disse...

ANTONIA,
muito obrigada pelo apoio e pelas palavras. Eu desejo contribuir realmente, de forma eficaz. Irei me esforçar sempre.
Beijo!

Ivone disse...

LUCIANA,
dizer que sentiu vontade de ler mais é um IMENSO elogio! OBRIGADA!
Um beijo!

Ivone disse...

SIMONE,
agradeço muito seu apoio! Que bom que vc gostou tanto e é fantástico um elogio como este: dizer da vontade de querer ler mais! Fico muito feliz! =)
Beijo grande!

Ivone disse...

RAMANI,
eu disse antes e repito: quase fiquei sem palavras diante das suas. Obrigada pela força, pois é necessária para continuar diante de tanto, e obrigada pelo carinho, pelo apoio, pelo orgulho!
Beijo grande!

Ivone disse...

LOCUST,
obrigada! Volte sempre por aqui! =)
Beijo!

Arney disse...

homossexualismo hoje nada tem a ver com doença

Arney disse...

acho que podemos dizer que o heterossexualismo está doente...

Rita Colaço Brasil disse...

Parabens, Ivone - pelo conteúdo e estilo.
Abs.,

Ivone disse...

RITA,
obrigada! Vc já sabe o que penso dos seus textos: ADORO! Então, é um grande elogio e uma alegria vc ter gostado do meu. =)
Beijo grande!

Anônimo disse...

Muito bom seu texto, professora Ivone...

Ivone disse...

MARCIA,
quem me chamaria de professora Ivone, senão MT?
Beijos, boboca!

Anônimo disse...

Ivone, vc realmente escreve muito bem! mas não me surpreendi pois te admiro e para mim, nem sapata, nem dodoizinha, simplesmente "as meninas". As meninas que me ajudam com meus cachorros, as meninas que me fazem companhia enquanto cuido do meu bebê,as meninas que me alegram porque surgem com uma piada em qualquer situação. E tudo isso feito de coração! Vc é muito gente! bjs Marta

Ivone disse...

MARTA,
vc sabe que nós, as meninas (rsrsrs), ajudamos por ser tudo muito bom: os cachorros, o bebê e fazê-los rir! E as piadas são compulsivas mesmo, vc sabe! rsrsrsrs Obrigada pelo carinho e beijos em você, Augusto, Miguel e Caetano! (Lígia também manda um beijos!)

Maria disse...

Adoreiiiiiiiiii...parabéns, seu texto está perfect rsrsr...Sou estudante de Psicologia e gostaria de escrver meu TCC sobre a famlía do homossexual, de que forma esta pode contribuir com apoio para reduzir a discriminação para com este homossexual. Afinal, quando o homossexual tem o apoio da familia fica bem mais fácil enfrentar o preconceito

Anônimo disse...

Ivone, adorei. Finalmente vc brinda os internautas com sua inteligência!

Obrigada e um beijo no coração.

Corina Sátiro

joao w nery disse...

Lembrei-me de uma amiga querida, que deixou de brincar na pracinha, quando era criança, porque todas a chamavam de ceguinha. A mãe dela, brilhantemente, passou a chamá-la assim, de uma forma extremamente carinhosa. E tudo se resolveu...
Como dizia o Darcy Ribeiro pra mim aos 15 anos: "Precisamos perder o medo das palavras".
Parabéns pelo artigo,Pita. O termo homossexualismo já completou maioridade este ano e, portanto, há muito emancipado da patologização também do coletivo.