terça-feira, 16 de agosto de 2011 | 19:08 | 22 Comentários

Homofobia em família: as unhas e a caixa de ferramentas.

Entro em uma loja especializada em produtos para unha e cabelo e uma voz bem alta para que toda a loja ouvisse me chama atenção: “não, ele não gosta de unhas, não! Ele gosta é de ferramentas! Não é fulano? Lá em casa ele tem uma caixa de ferramentas! Eu dei a ele. Não gosta de unhas não, gosta de ferramentas!” Isso gritado para um menino de talvez pouco mais de dois anos, e, claro, para o restante da loja. Fiquei em choque. Fiquei ali, muda, estática, estarrecida, olhando fixamente para aquela cena. Eu estava de costas, mas virei metade do corpo em direção àquela família e fiquei encarando toda a cena. O que algum tempo depois me fez pensar como a escandalosa não me perguntou o que eu tanto olhava. Passado o choque, fiquei pensando: a preocupação é o que vão pensar sobre o filho dela, se vão pensar que é um viadinho? Ou ela acredita na idéia escrota de que se a pessoa for criada direito não “se torna” homossexual? Ou ela acha que se o cara gostar de esmalte, claro que é viado? Ou se o cara gostar de caixa de ferramenta não é viado, pois viado que é viado gosta mesmo é de esmalte?

Depois foi um turbilhão de sensações e pensamentos. Como será a vida desta criança? Crescerá um homofóbico, um machista, um conservador, uma bicha reprimidíssima, destas que precisam reafirmar a masculinidade das formas mais controversas e ridículas? O que a família fará com esta criança? O que causará a ela? Ele, se percebendo gay um dia, terá coragem de assumir? Achei tão triste e dolorosa aquela cena. Não apenas pelo garoto, tão vulnerável e frágil, mas por ser a história de todos nós. Sim, é a história de cada um de nós. Quem nunca sofreu homofobia em família, em maior ou menor grau, de forma explícita ou velada? Quem nunca se viu no meio de questões com saia, tipo de sapato, corte do cabelo e insistência na história d@ namorad@? É por isso, por nossa própria homofobia em família, que sabemos bem que não se trata apenas deste menino nem de um episódio isolado.

Fiquei muito triste. Aquela cena me abalou de um jeito que eu não esperava. Talvez tenha mexido fundo em minha própria história. Talvez tenha gritado na minha cara que eu ainda faço muito pouco, que tenho que fazer mais. E como eu gostaria que cada pessoa LGBT entendesse a necessidade de se posicionar, a necessidade de lutar. Como eu gostaria que tod@s, agora, neste exato momento, procurassem como ajudar na luta por nosso reconhecimento, na luta contra a discriminação, contra a homofobia e a favor do amor.Afinal, não podemos mais permitir este tipo de comportamento tacanho. Não podemos mais permitir agressões e mortes cotidianas. E não falo somente de agressões e mortes físicas. Há muitas outras que deixam marcas indescritíveis, como todos nós, infelizmente, sabemos tão bem. Não se trata somente de mim ou de você. Trata-se de cada um de nós e também dos que ainda estão a caminho. Trata-se de cada uma destas crianças. Que elas não sofram o que não precisariam sofrer.

Por tudo isso é que assumir é um ato político. É uma questão social. Assumir é a melhor cura para nossos males de opressão. Não assumir é carregar todas as mágoas em silêncio e em absoluta solidão. Não assumir é continuar sofrendo todo tipo de perversidade. Não assumir é uma dor infindável. Não assumir é uma prisão, mas não apenas sua. Não assumir é se omitir. Não uma omissão individual, particular, é uma omissão social, uma omissão política, é não colaborar com a quebra do ciclo perverso a que somos subjugados. Não assumir é morte lenta. Sei que assumir não é fácil. Assumir é conversar com papai e/ou mamãe. É vê-los chorar. É se sentir nu. Assumir é reconhecer toda uma parte da vida trancada, oprimida, tolhida – e saber que não se poderá recuperá-la. Assumir é reconhecer o quanto se foi magoad@ e dizer para quem nos magoou: você me machucou naquele dia, no outro, aqui, ali, desta e daquela forma.

Assumir é dizer ao mundo que sim, eu sou @ mesm@ de sempre, mas jamais serei @ mesm@.


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22 comentários:

RICARDO AGUIEIRAS disse...

Perfeito! Infelizmente, o assumir-se não tem um fim numa sociedade heterossexista e heteronormativa. Ou, como diz o grande Mott : "HeTERRORsexista". Todos os dias estamos tendo que PROVAR aos outros e outras ou seja lá quem for que não somos heterossexuais: na academia, quando nos perguntam "se temos namorada"( sendo homem ) ou "no que trabalha o seu marido?", se for mulher.. E temos que ficar repetindo q8ue sou gay , que sou lésbica. Exceto numa ou outra lojinha muito especializada em LGBT's, toda a comemoração do Dia dos Namorados é heterossexista. Acabamos aceitando isso calmamente, "naturalmente" e nem nos damos conta de que a heterossexualidade imposta nos é vendida a todo o instante, como batatas fritas, meninos ainda vestem azul e meninas , rosa e, no chá do bebê dão roupinhas conforme o que o ultrasson mostrou da genitália.... Triste demais isso, triste demais viver nisso e com isso.
Ricardo
aguieiras2002@yahoo.com.br

luciana disse...

Vc é ótima Ivone! " Ou ela acredita na idéia escrota de que se a pessoa for criada direito não “se torna” homossexual?" Desculpa as risadas mas vc consegue ser engraçada msmo falando de algo tão sério.

Este episódio me fez lembrar de algo q aconteceu aqui em casa e gerou grande mobilização na minha família (digo meu pai, minha irmã, pois aqui em casa, eu e meu marido n nos importamos).

Eu gosto de pintar as unhas. E, meu filho sempre me vê qdo estou passando esmalte e acabou dando opinião: "mainha este tá bonito, este ñ gostei"...um dia ele estava na casa de meus pais e, vendo minha irmã c esmaltes, disse a ela as cores q gostava e pediu p q passasse na sua unha. kkkk.foi um rebu! me chamaram p conversar, me deram conselhos, enfim.É o medo. A conversa se encerrou com meu marido dizendo q se algum filho fosse gay ele nao se importaria de forma alguma.E ponto final.

Bj p vc Ivone.

Pólux disse...

A homofobia da família É a mais devastadora. Todas as outras vítimas de preconceito podem, de uma forma ou de outra, contar com o apoio e aconchengo da família, nós não, muito pelo contrário. Essa mãe(?) está criando um monstro, como foi MUITO BEM DESCRITO no texto. Nem dá muito para comentar, pois, o texto é tão claro, que nem cabem muitos comentários. Tudo está ai, tudo que sofremos, tudo que vivemos e, pior, ainda vamos vivenciar. Triste!

Bia Ramos disse...

Perfeitas as suas colocações, Ivone. Com isso a gente constata que ninguém nasce preconceituoso. Que a homofobia é enxertada na cabeça das pessoas pela própria família, que tem medo do que os outros vão pensar, ou dizer, se desconfiarem que naquele lar existe um homossexual. Que ridícula e hipócrita ainda é a "família brasileira padrão".
Como dizia Cazuza:
"Vamos pedir piedade,
Senhor, piedade!
A essa gente careta e covarde!"

Junnior disse...

Olá, Ivone. Sou o Junnior do Identidade G para quem vc enviou uma msg via 'twitter' com o link desse texto primoroso.
Além de boa leitura, o texto nos leva àquela loja no momento em que aquela família gritava que não queria um filho viado.
E aí, assim como vc, que foi acometida de um turbilhão de pensamentos, a cena nos faz refletir e nos remete também aos nossos pais ou a nossa história.
Quem foi uma criança 'diferente', passou por situações semelhantes e sabe bem o constrangimento daquela lá, da loja.
Vc tem muita razão: a história se repete. O futuro nos levará aos mesmos problemas atuais se as reações de pais, professores, parentes e de 'amigos' continuarem dessa forma ao perceberem que uma criança não está se portando como 'macho' ou como 'fêmea'.
O mais grave é que a população no futuro será maior que a de hoje, ou seja, haverá mais gays e, claro, proporcionalmente mais oprimidos, mais homofóbicos, mais problemas.
Para sair desse círculo vicioso, os gays precisam mesmo de posicionamentos; de verdades...Enfim, neste caso, sugiro que o leitor releia os dois últimos parágrafos do seu texto.
Beijos.

Taty Valéria disse...

Me sinto um peixe fora d'agua, no bom sentido do termo.
Minha família não é das mais progressistas não. Meus pais são dois infelizes que vivem juntos na mesma casa tem mais de 30 anos e quase não se falam. Cada um com seu amante... enfim, normal né?
Mas eu tenho um tio gay. Ele "sempre" foi gay, no sentido de nunca ter escondido nada de ninguem. Isso sempre foi aberto. Ele sempre foi meu tio predileto: o mais presente, o mais carinhoso. Aquele tipo de tio que planeja as ceias de final de ano.
No mês de abril ele fez uma mega festa de 50 anos. Moro em outra cidade e fui com minha filha adolescente. A casa estava cheia e ficamos hospedadas com um casal de amigos dele. Gays. Lindos, educados, organizados.

Crescer com essa consciência foi talvez a melhor coisa que meus pais puderam me proporcionar.

Rayssa disse...

Quando meu filho de 2 anos me vê pintando as unhas quer pintar a dele também, eu pinto sem problemas, é uma brincadeira. Muita gente olha com cara de reprovação (rindo da situação). Meu marido acha que ele não deve ganhar brinquedos como bonecas e panelinhas, é uma das maiores fontes de discussões aqui em casa. Outro dia estávamos com os amiguinhos do prédio, trigêmeos (2 meninos e 1 menina), a menina trouxe o esmalte pra me mostrar. Meu filho pediu pra pintar uma unha, eu pintei. Lógico que os outros dois quiseram também. A mãe me olhou com aquela cara, sorrindo, de "aiaiaia... desensinando o que eu ensinei". Eu olhei pra ela, vi que estava sorrindo (apesar de sentir um pouquinho de reprovação) e pintei de rosa as unhas dos filhos dela. Acho que aí ela percebeu que não tinha nada de grave nessa brincadeira e seguimos brincando.

Bruno Frika. disse...

Seu texto é uma das coisas mais bonitas e dolorosas que já li em algum tempo, me emocionou. Parabéns, quem dera todo mundo tivesse uma consciência tão preparada e livre como a sua.
Abraço.

Ivone disse...

RICARDO AGUIEIRAS,
obrigada. De fato, no nossa luta é diária.

Ivone disse...

LUCIANA,
imagina, o que é muito patético acaba, por vezes, nos fazendo rir mesmo. Que bom que vc e seu marido ajam desta forma! E que ainda digam aos demais que o que importa é a felicidade de seu filho! =)
Beijos,
Ivone.

Ivone disse...

PÓLUX,
ela está criando o filho para isso mesmo, para a monstruosidade, seja física e/ou emocional, mas espero que ele possa romper com isso e se tornar um ser humano digno e empático.
Beijos,
Ivone.

Ivone disse...

BIA RAMOS,
obrigada! Realmente, o medo do que vão pensar é algo terrível, de tantas formas e em tantos sentidos, mas é sempre retro-alimentado, infelizmente. Sentem medo do que vão pensar por também apontarem o outro...
Beijos,
Ivone.

Ivone disse...

JUNNIOR,
que bom ler isso! Era exatamente o que eu queria: carregar as pessoas para dentro daquela loja comigo, fazer com que vissem a cena e vissem sua própria história e pensassem sua trajetória. E, claro, que decidam participar mais ativamente da luta por nossos direitos e pela mudança de certos paradigmas.
Beijos,
Ivone.

Ivone disse...

TATY VALÉRIA,
comigo é o oposto: cresci com pais que se amam muito, sem referência alguma da comunidade LGBT. Mas que bom q vc cresceu tendo o seu tio. Que bom hoje vc ter esta consciência, apesar da família pouco progressista. Desejo fortemente que o menino da loja tenha a mesma sorte.
Beijos,
Ivone.

Ivone disse...

RAYSSA,
que bom vc ter esta compreensão de que é apenas uma brincadeira mesmo, mas o melhor mesmo é vc, apesar dos olhares de reprovação, insistir junto a outras mães e proporcionar esta liberdade não somente a seu filho, mas também a outros meninos.
Beijos,
Ivone.

Ivone disse...

BRUNO FRIKA,
fiquei emocionada. Lindo ler o seu comentário. Lindo. Obrigada.
Beijos,
Ivone.

Anônimo disse...

Concordo, em parte, com o texo. A homossexualidade não deve ser encarda com desrespeito ou agressões ou whatever... Todo ser humano é digno de respeito não importando raça, religião ou a sexualidade do mesmo. O incidente que aconteceu na loja de cosméticos foi mais um exemplo da falta de informação e esclarecimento dos brasileiros sobre o assunto. Dizer que a mãe está errada... depende. Com toda certeza ela não está preparada para lidar com esse tipo de situação, mas taxá-la como péssima mãe caracteriza falta de preparo psicológico por parte da autora. Provavelmente ela disse isso por não ter tido apoio sobre sua sexualidade na infância o que a deixou muito sensívela com uma simples demonstração de falta de esclarecimento. A população LGBT deveria lutar mais por seus direito e mobilizar seu próprio povo, em uma iniciativa sócio-educativa, para esclarecer a população heterosexual de que homossexualidade não é questão de educação, escolha ou etc...

Ivone disse...

ANÔNIMO,
sinto falta de uma identificação explícita, embora nem sempre seja um nome – q sempre pode ser fictício - o que identifica quem escreve, mas sim a forma e o conteúdo do discurso.
O que houve na loja, PODE ser decorrente da falta de informação e/ou educação ou de despreparo, mas não é somente por estes motivos que pessoas são homofóbicas, esta é apenas uma das deduções possíveis, embora estas faltas possam também fazer muito mal. Ainda assim, não caracterizei a mãe como péssima, pois não é possível tal afirmação com base em alguns minutos e um único recorte, seria leviano e reducionista, como a acusação de despreparo psicológico, por falta de apoio à sexualidade. Como considerar que este fator determina o grau de empatia e sensibilidade diante de uma cena como esta? Espero, sinceramente, que tais empatia e compreensão não aconteçam apenas por este motivo. Sobre a luta da população LGBT, a cada dia somos muitos lutando de forma e em espaços variados por respeito, ações afirmativas, equiparação etc. e dialogando, com o propósito de esclarecer e informar ainda que o interlocutor insista em tentar nos desqualificar através de recursos falaciosos.
Até mais,
Ivone.

Henrique disse...

Perfeito o texto. Realmente são nessas situações do cotidiano que nos deparamos com nossa propria historia. E o fato de nos vermos no outro é dolorido, pois sabemos de tudo pelo que passamos e enfrentamos. E é mais dolorido ainda saber que algumas pessoas continuam insistindo na criação como fator determinante da sexualidade de uma pessoa, que tolice. Isso sinaliza que há um longo caminho ainda a ser percorrido por todos aqueles que apoiam a nossa causa.

Ivone disse...

HENRIQUE,
obrigada! Sim, são estas e muitas outras situações que nos remetem a nossa própria história, mas também a de tantos outros. Devemos lutar a cada dia para mudar isso. Para que não se insista mais em achar que estes detalhes da criação de uma criança que determina sua sexualidade. É difícil, o caminho é longo, como vc disse, mas somos maratonistas! ;)
Beijos,
Ivone.

Sharon disse...

Lá em cima no texto diz sobre unhas e caixa de ferramenas, eu sou uma travesti e não tenho a mínima paciência com unhas kk e adoro uma caixa de ferramenta, arrumar eletrodomésticos e tal. Só não meixo muito com a caixa de ferramenta porque meu companheiro não gosta, ele acha que tenho que ser bem feminina, mas se bem que eu serveria pra ser do tipo Pereirão da novela kkk.

Carlos Eduardo Borges disse...

Ivone, como vc disse todos nos sofremos homofobia na familia. E nesse caso do menino que voce relata, pode ser que ele se torne um homossexual homofobico. Parece contraditorio, mas conheco muitos. O tipo que se orgulha em dizer "sou gay, mas nao sou bicha louca". "Minha familia aceita?? porque me comporto como homem." Algo terrivel, o preconceito demonstrado por quem e vitima de preconceito e que se julga assumido. Beijar, fazer um carinho no namorado/a na frente da familia jaaamais, efeminados ou travestis,transex como amigos tambem nao. Por isso, como vc afirma, assumir-se e um ato politico, mas que seja por inteiro.