segunda-feira, 29 de agosto de 2011 | 10:10 | 19 Comentários

Lésbicas: orgulho e visibilidade

Somos lésbicas. Somos mulheres que vivem sem homens em um mundo machista e de mentalidade patriarcal.

Somos mulheres que subvertem a ordem do sexo frágil, da dependência e da subserviência. Somos mulheres que não seguem o “manual de boas práticas femininas”, que dita modos de vestir, de agir, de falar, de ser e estar no mundo. Somos revolucionárias na acepção própria da palavra: fazemos uma transformação radical na estrutura da sociedade. Estamos onde supostamente mulheres não deveriam estar. É ainda espantoso para muitos, por exemplo, aceitar que duas mulheres possam viver sem um homem. Como vão resolver tarefas cotidianas tidas como masculinas? Não irá lhes faltar força? Jeito? Tino? Há ainda as tentativas de ridicularizar, diminuir e não reconhecer nossa sexualidade. Há uma desqualificação fálica de nosso sexo. Para machistas de carteirinha - e uniforme completo! - lésbicas não trepam de verdade, apenas brincam de se esfregar. Sim, meninas, como se fosse pouco e somente o que fizéssemos. Mas a despeito das agressões e desqualificações, seguimos subvertendo a ordem, desconstruindo certezas e quebrando o que estaria estratificado.

Entretanto, sem orgulho, nada disso é possível. Sem orgulho, nos encolhemos, nos escondemos, deixamos a vida passar. Sem orgulho, não nos fazemos visíveis e sem visibilidade é como se não existíssemos. E, assim, nenhuma revolução acontece, nenhuma revolução é possível. Por outro lado, sem visibilidade não promovemos o orgulho. Somente a partir do momento em que nos tornamos visíveis por sermos nós mesmas, é que somos plenamente orgulhosas de sermos quem somos. E para isso é preciso coragem. 
Vivemos em uma sociedade que insiste em dizer qual é o lugar da mulher, como deve ser sua inserção social e como deve se comportar. Sendo lésbica, melhor nem existir, pois não cabemos nos papéis destinados à mulher. E é assim que cotidianamente a sociedade nos diz que deveríamos nos envergonhar de ser quem somos e esconder nosso amor. É assim que a sociedade insiste em nossa invisibilidade, pois o que não se vê, não existe, não incomoda, não subverte.
Quando permanecemos invisíveis, contribuímos com a manutenção da discriminação e da violência, motivos pelos quais muitas mulheres optam por uma vida de anulação e silêncio. Contribuímos com a lesbofobia, pois não dizemos ao mundo que estamos em todos os lugares, em todas as profissões, em todas as famílias, em todos os cargos. Não dizemos que somos mães, filhas, avós, tias, irmãs, empregadas domésticas, médicas, advogadas, professoras e toda sorte de representação e inserção social. Não ajudamos outras mulheres a se revelarem, a se assumirem, a serem plenas. Assinalando nossa existência, derrotamos o medo do desconhecido, a discriminação e o ódio alimentado pela perversidade delirante – e nada inocente - de lésbicas destruidoras de família. Existindo publicamente, abordamos questões que nos são específicas e combatemos o sexismo.

A invisibilidade é uma grande violência contra nós lésbicas. Na mídia, por exemplo, o foco são os homossexuais masculinos. A violência homofóbica é tratada como um fenômeno que atinge somente homens. 

Mas nós mulheres, se não estamos nos jornais como vítimas de violência física especificamente por nossa sexualidade, isso ocorre apenas pela violência do silenciamento: seja pela invisibilidade auto-imposta, por medo, seja pela falta de estatística específica. Aliás, não temos dados específicos de coisa alguma e raros registros de nossa história. E daí a imensa importância do coletivo. Para enfrentar os desafios que nos são apresentados e superar tanta opressão, não há como avançar individualmente, a única forma de alterarmos o ciclo perverso de invisibilidade e descaso é pela união de nossas vozes, de nossa força. A única saída possível é nos organizarmos e lutarmos. E isso depende de cada uma de nós, não de agentes externos. Nós temos direito à existência, a uma vida completa, à cidadania plena, à visibilidade. Podemos e devemos ser felizes. Plenamente felizes.
A visibilidade lésbica cotidiana é que derrubará a censura que nos é imposta e o cerceamento de nossos afetos e desejos, portanto, realize algo grandioso: torne-se visível, desafie a opressão e o autoritarismo da normatividade, pois é assim que escreveremos nossa história, uma nova história, e construiremos uma sociedade mais justa, mais solidária, democrática e plural.

@ivonepita




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19 comentários:

Suely disse...

Muito bom texto, bem escrito. Twittei. Um abração.

Ivone disse...

SUELY,
obrigada! Muito bom ler isso. E agradeço muito a divulgação! =)
Beijos,
Ivone.

luiz disse...

Mmuito bom texto

Rômulo disse...

Gostei do texto Ivone... É quebrando paradigmas e jogando tabús no lixo que a sociedade acordará para a evolução e perceberá que a mulher é muito mais do que o homem desenhou... Mas vou ainda mais longe viu, existem gays que menosprezam tanto mulheres heterossesuais quanto homossexuais e é exatamente mostrando o potencial e a força que as mulheres tem, em especial, lésbicas, que teremos uma sociedade mais justa. Aí sim, tudo entrará em harmonia... Mulheres e homens vistos como seres humanos, sem distinção de um para com o outro. Visibilidade lésbica. Que mulheres lindas e belas que amam outras mulheres e peitam toda uma sociedade para viver esse amor, se mostrem, se unam e façam valer a força e agarra que cada uma tem... Bjs

Minhas Musicas, Meus Sonhos disse...

"Mas a despeito das agressões e desqualificações, seguimos subvertendo a ordem, desconstruindo certezas e quebrando o que estaria estratificado."
Gostei muito.
Sabe vc sabe usar a força q tem nao so a seu favor mas de outrem. Valeu, Ivone querida!

alessandrols disse...

Bem as lésbicas, na verdade, fazem parte da "minoria" mais esteriotipada. Os homens, especialmente, veem a sexualidade das lésbicas como parte de uma realidade insípida, quer dizer, elas servem para excitar as fantasias deles. Todo homem fica de "pau duro" quando presencia o beijo entre duas mulheres, nesse momento, ele imagina a trepada ideal - a conjunção carnal entre uma mulher, uma outra mulher, no caso a lésbica da fantasia, e o homem, como o salvador da pátria, aquele que dará legitimidade à transa, com o seu pênis onipresente. Há aqueles que veem a lésbica como a feminista que deu errado, pois "ficou tanto tempo querendo se equiparar aos homens que passou a querer, também, a coçar o saco." Tem aqueles que veem a lésbica como uma mulher atrofiada, pois não tem a chamada alma feminina ou o pênis, o mais reacionário dos orgãos humanos. Também há muitos que sentem pena da lésbica por ela não ter o pênis, aquele que legitima o sexo genitalizado. Alguns chamam isso de o "complexo da ausência do pênis". Isso sem falar do preconceito contra as lésbicas masculinizadas, tão estigmatizadas quanto a "bichinha quaquá". Mas há o estigma mais grave: muitos, muitos mesmo veem a lésbica como a maior inimiga do imaginério masculino, pois a lésbica é vista como um ser que macula a imagem, geralmente coisificada, da mulher. A lésbica foge ao padrão masculino apesar de ter "o mesmo desejo que o homem", o que é uma falsa verdade. Lésbica não é igual ao homem só porque ama outra mulher, a sexualidade e o amor é diferente para todos, sem exceção. Não duvido que a lésbica seja profundamente estigmatizada. E este estigma está geralmente num certo desprezo que os héteros tem pela figura da lésbica, que é vista como uma "aberração menor", menos visível. A lésbica é, na verdade, mais uma vítima da "ditadura dos afetos". Parabéns, mais uma vez, Ivone.

FOXX disse...

parabéns, Ivone, excelente texto.

Sergio Viula disse...

Lindíssimo texto! Parabéns, filhas de Lesbos!

Beijo a todas!

Sergio Viula
www.foradoarmario.net

Åsa Heuser - Uma ateia de bom humor disse...

Muito importante levantar esse assunto.
Sempre percebi que quando se fala em homossexualidade as lésbicas são esquecidas, como se só existisse a homossexualidade masculina.
Tuitei o texto.

luciana disse...

É verdade Ivone. Homofobia a parte, uma boa parcela de homens heteros se sentem afrontados pela idéia de duas mulheres satisfazerem-se sozinhas. Acabam pensando: "n é possivel!"

Parabéns, mto bom texto ;)

BozoDel disse...

Bom, na cabeça de muita gente, mulher sem homem não existe, e a mulher tem que ser assim, e homem tem que ser assado, e mimimi. Para essas pessoas, sexo, sexualidade e gênero são uma coisa só.

É o que precisa ficar claro aqui: uma mulher não precisa ser lésbica para questionar as definições de gênero, que aliás é uma construção social.

Penso que as duas coisas, o machismo e a homofobia, têm que ser vistas separadamente, embora tenham raiz comum e possam agir juntas. Alguns argumentos aqui estão misturados, podendo nublar a força da argumentação. Talvez isso possa levar mesmo a algum segregacionismo dentro do movimento gay, por fazer o caso das lésbicas parecer um caso à parte.

Fora isso, concordo. Tem mais é que ter orgulho e se mostrar mesmo. Porque aquela criança que vê um casal de meninas hoje, sabe o que ela vai pensar quando crescer?

Nada.

Vai achar é normal.

alessandrols disse...

Escrevi com certa pressa e acabei cometendo um pequeníssimo erro de concordância, que vacilo, mas quem ler, acho que vai entender.

Jacqueline Teixeira disse...

Concordo com cada palavra do seu texto!
Simplesmente PERFEITO!

Não podemos nos deixar dominar pela heteronormalidade e pelo machismo dominantes. Somos lésbicas sim e vivemos bem até demais sem um homem ao nosso lado.

Somos felizes, amamos, fazemos parte do 'social' e merecemos respeito, o direito de todo cidadão que anda sendo jogado no lixo e retorcido pela 'liberdade de expressão'!

A violência contra o gay merece destaque, assim como a violência contra duas mulheres que se amam.

Não podemos viver escondidas e visibilidade, luta e orgulho devem estar escritos em nossos olhos quando finalmente sairmos do armário!

Pablo disse...

Que maravilha de texto! Enquanto a violência física geralmente atinge os gays, a invisibilidade, como você mesma disse, atinge as lésbicas. Em relação ao que Alessandrols disse, está corretíssimo. Lésbicas são vistas como objetos sexuais... ou inexistentes! Lembro-me de uma vez que estava numa balada com uma amiga lésbica, e um cara a ''cantou''. Ela disse que curtia mulher e ele disse ''Eu te faço mudar de ideia''. Pura ignorância.

Parabéns a todas as lésbicas, suas gatas!

BozoDel disse...

Tem uma amiga minha, lésbica, que acha que as estilo machinho têm que ser obrigatoriamente ativas, as femininas obrigatoriamente passivas.

O mesmo vale pra homens. Bichinha ploc-ploc comendo? Absurdo.

Continua arrastando os estereótipos.

Marcelle Silva disse...

Texto simples e que diz tudo, e pode ser lido e entendido por qualquer um... mas infelizmente há pessoas que não entendem. Mas dias melhoras virão, com certeza!

Não conhecia o blog, e adorei ler!

Um feliz ano novo, e muita paz!

Bjos

Anônimo disse...

Boa tarde a todos!Considero de grande importância nós enquanto mulheres lésbicas estarmos incessantemente quebrando tabus, preconceitos, enfim colocar para a sociedade que não é pelo fato de apresentarmos uma orientação sexual diferenciada de alguns que somos menos cidadã, menos mulher..É necessário desmistificar certos esteriótipos construido ao longo do tempo, pois somos mulheres,livres e sabemos muito bem o que nos faz feliz!E viva a diferença!

Anônimo disse...

gostei

Nanda disse...

O que faz a mulher ter um orgasmo é o clitóris dela, não um pênis.