terça-feira, 23 de agosto de 2011 | 19:13 | 3 Comentários

Quem tem medo de ficar sozinho?

Ontem à noite senti certas dores na região que comumente chamamos de pé da barriga. A dor não diminuía e, a cada minuto, eu perdia o tempo mínimo de minhas horas de sono. Eu estava sozinho. Sozinho com minha dor. Aí, nessas horas, a gente se pergunta se vale a pena estar sozinho.

Mas o que é estar sozinho?

Seria o não-estar-sozinho apenas uma vantagem dos casais compromissados com suas vidas completamente interdependentes? Aquela vantagem de que apenas os casados se vangloriam de dividir suas despesas sem partilhar – não a maioria – as carícias necessárias? Às vezes, encontro esses tipos nos restaurantes, sentam-se um do lado do outro, passam um período juntos, mas sequer trocam olhares mais afetuosos. Cumprem sua tarefa de fazer companhia para ratificar o pleno exercício da atribuição de estar casado, junto, enrolado, amancebado. No entanto, vivem numa harmonia forçada e sempre pensando que a grama do vizinho é mais verde.


Certa vez, vi um casal discutindo sobre como eles deveriam trabalhar o carinho que um achava que faltava do outro. Pedia-se atenção, mais tempo juntos, mais presentes, mais sexo. Cobranças, cobranças. Parecia uma verdadeira prestação de contas. E eles a faziam em pleno supermercado, em meio a pessoas e sua prole descontrolada.

Confesso que diante de minhas dores, não fiquei a pensar em todas essas memórias naquele momento. Mas, certamente, se tivesse um companheiro, ele estaria presente para aplacar a sensação daquela dor; pelo menos, ela pareceria menos dolorosa. Será?

Mas o que seria de meu aprimoramento como ser humano, se não soubesse lidar e superar esses problemas domésticos sem contar comigo mesmo? Fico pensando nessa possibilidade como verdadeiro amadurecimento tal qual os samurais se submetem, enfrentando a dor, a ausência, a solidão.

Mas seria temerário dizer que a união de um casal seja sob qual escudo, pretexto ou credo, fosse apenas para aplacar essas dores físicas que nos acometem vez em quando. Talvez subsista algo além de minha compreensão do que realmente une os opostos; nem com isso quero dizer que seja atributo único dos casais "normais" e falte ou sobeje nos relacionamentos não convencionais. Mas deveria ser algo mais complexo esse encontro alardeado das almas complementares. Também sei que a felicidade não é outro atributo exclusivo deles. Ela está em toda a parte.

Mas a dor aumentava a ponto de me alertar sobre todos os inconvenientes que passara esses últimos dias; como se fossem aqueles, seres inanimados, verdadeiros personagens reais. A dor parecia como um grande alarme nuclear, num permanente countdown para o anúncio de uma versão nova da história já conhecida. 

Mas, às vezes, tudo isso tem a ver com o novo: ou por que você desiste de dividir suas coisas, ou por que você tem medo de fazer parte de um conjunto bem mais complexo.

De qualquer forma, eu não quero essa muleta para mim apenas para dizer que tenho um complemento. Em que pese minha dor recrudescer, pior seria ter que administrar um dor no pé da barriga e outra na boca do coração.

Roberto Muniz Dias "Escritor" e assina o blgue:
http://noposthumousparty.wordpress.com


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3 comentários:

Fábio disse...

Ótimo texto. Parabéns...

abraços

RICARDO AGUIEIRAS disse...

Discordo um pouco. Não há receitas para a vida e nem a solidão seria uma receita/resposta para uma união onde só existissem cobranças. Acho, sim, que a sociedade considera como um/uma fracassado/a quem não tem alguém e isso pode ser até pior que realmente não ter alguém. Ou seja, sempre estamos com medo do olhar do outro, mas também não conseguimos fugir disso.
"Muletas" existem e têm sua função. Não sei mesmo o que seria pior: tolerar umas cobranças ou morrer só, como Miriam Batucada morreu, só foram sentir a sua falta 20 dias depois...aí arrombaram a porta do apartamento onde ela vivia. Ou o grande artista plástico Hélio Oiticica, que teve um AVC e ficou três dias tentando chegar até o telefone para pedir ajuda, sem conseguir... morreu de inanição, de fome... se tivesse alguém por perto, com ou sem cobranças, não seria melhor?
Enfim, sou também totalmente só, moro num quarto com banheiro. E já me vi em situações desesperadoras em que precisaria ter alguém por perto. E não tive. Não quero também que a arrogância limite as minhas entregas e reprima a aproximação do outro. É dificil, muito. Quando jovem, podemos tudo. Mas e depois?
Ricardo Aguieiras
aguieiras2002@yahoo.com.br

Roberto Muniz Dias disse...

Caro Ricardo,

Obrigado pelo comentário recheado de verdades. Mas o assunto solidão não cabe verdades e meias-verdades; cabe apenas a especulação de como manejar a dor. Se os expemplos que você citou inteleigentemente fossem de pessoas rodeadas de amigos ou companheioros a situação seria diferene. Porém, às vezes, nos cercamos de uma solidão ignóbil por pensar que somos sempre autossuficientes ou eternamente imortais.
E solidão não é apenas estar sozinho, é permancer na ideia de que isso nunca vai acontecer "conosco"
Abraços!
robertomunizdias@gmail.com