quarta-feira, 28 de setembro de 2011 | 15:37 | 15 Comentários

A salvação pela palavra

Conta a lenda que Sherazade contou muitas histórias para salvar a própria vida. Ao final, acabou salvando muito mais: a si mesma, várias outras mulheres e o próprio sultão, seu fiel ouvinte de todas as noites. Sherazade foi capaz de mudar tanto, modificar tanta gente, alterar o percurso de tantas vidas. E, então, é fantástico saber que todos os dias, em todo o mundo, também LGBTs salvam vidas pela força da palavra. Salvam vidas falando que o outro pode se assumir, pode viver, pode amar. Salvam vidas afirmando que aquela fase de opressão extrema, em que o outro pensa em se matar, é transitória, que um dia tudo irá melhorar. Seja com um blog, ou uma parada com milhões, milhares, centenas ou com poucas dezenas de pessoas, salvamos vidas ao tornar o mundo possível para quem é tido como diferente. Salvamos vidas quando tornamos a vida possível de ser vivida. Salvamos vidas quando entendemos a rede da qual fazemos parte e ajudamos em sua costura.
Salvamos vidas quando aquela pessoa oprimida por seus pais, por seus familiares, pelos amigos, na escola, na igreja, na vizinhança, pode contar somente com nossa palavra ou apenas com a noção de que não está sozinho, de que somos muitos e que sobrevivemos e somos felizes, que o mundo gira, a história avança e nossos direitos e qualidade de vida correm ao lado deles. Salvamos vidas quando uma das tantas pessoas que pensam em se suicidar, o deixa de fazê-lo por uma palavra, uma imagem, uma multidão nas ruas, alegre, cantando, pulando, dizendo ao mundo que nossa vida vai muito bem - obrigada! -, apesar de tudo e de todos que são contra. Quando mostramos seja através do que for, que não somos invisíveis, que jamais seremos, pois não nos cabem nenhum gueto e nenhuma capa mágica que nos faça desaparecer. Quando mostramos que vivemos, trabalhamos, amamos, trepamos, nos divertimos. Quando mostramos o quanto somos fortes. Cotidianamente fortes e por toda uma vida.

E não desanime, não pense nem por um minuto que sua militância é desimportante, que não tem valor, que pode ter um efeito muito pequeno e um alcance limitado. Qualquer que seja sua atuação lembre-se sempre que ela pode fazer total diferença entre a vida e a morte - física ou social – de alguém. Sempre haverá quem tente reduzir o significado deste ou daquele trabalho, seja ele qual for. E sempre haverá o fantasma do desalento de ver tanta coisa ruim ao redor, mas segure-se você também nas palavras de outros. Afinal, pense bem, podemos nos abater realmente com isso, quando um simples texto ou uma conversa on-line pode salvar uma vida? Enquanto tantos criam um universo impossível para LGBTs viverem plenos e felizes, mesmo apenas através do que falamos e escrevemos, podemos criar todo um outro mundo: um espaço de salvação do que corrói por dentro, do que não deixa respirar lá fora. Portanto, fale, escreva, publique, tenha um blog, um vlog, um site, mergulhe nas redes sociais, divulgue idéias, produza, partilhe informações, converse, chegue até as pessoas, promova ligação entre elas. É fantástico irmos às ruas, protestarmos, fazermos passeatas, paradas, reivindicações públicas, mas nada impede ou diminui a importância da propagação de palavras e idéias e sua força inegável na mudança de mundos e perspectivas de vida. Que nos diga Sherazade!



@ivonepita


É DE INTEIRA RESPONSABILIDADE DOS COLUNISTAS A EXPRESSÃO DE IDEIAS E OPINIOES VEICULADAS NESSE SITE!

15 comentários:

Luan Cunha disse...

Muito bom seu texto, como sempre.

Essa imagem da bandeira arco-íris é o banner do meu blog. É esse aqui:

http://arcoirisrevolucionario.blogspot.com/

Quem quiser dá uma olha, ou ser seguidor, é bem vindo

O Freak disse...

Parabéns pelo texto! Um ótimo motivacional!

Equipe Diversidade Católica disse...

Lindo texto, Ivone. Vamos reproduzir uma hora dessas - podemos? ;-))) Parabéns! :-)

Homem Invisível disse...

Nossa, Ivone, minha querida, fiquei até emocionado de verdade, fiquei arrepiado, eu tenho um amor profundo com as palavras, escritas, faladas e tudo mais, porém, você fez a bela ligação entre a militância que nada mais é que o querer ser respeitado, e a função das palavras e ideias neste nosso mundo. É bom que, enquanto o mundo caminha para a tolerância, assim espero, que as pessoas possam encontrar seus iguais, ou encontrar palavras que as façam mais felizes e se sentirem realmente importantes, poxa, amei teu texto, empurrei para ler agora, mas devia ter lido na hora que mandou o link para mim. Deixei em favoritos porque sabia que encontraria um grande tesouro pro aqui, e parabéns, fez muito bonito.

Ivone disse...

Luan,

obrigada!

Beijos!

Ivone disse...

Freak,

obrigada! Desejo realmente que o texto ajude a nos mantermos firmes!

Beijos!

Ivone disse...

Diversidade Católica,

obrigada! Vcs sempre muito generosos comigo!
E claro que podem, eu fico muito feliz!

Beijos!

Ivone disse...

Homem-não-tão-invisível (rsrsrs),

Que bom ler sobre suas sensações e suas considerações sobre o texto. Que bom encontrar mais um amante das palavras e que reconhece seu poder transformador. Fico muito feliz com isso!
Obrigada por suas PALAVRAS!

Beijos!

Sergio Viula disse...

Que delicioso encorajamento! É bom lembrar que nossa força pode criar ondas no mar da vida, as quais empurram as pessoas de volta para a praia. Às vezes, a força é pequena e cria só uma marola, mas marola após marola pode fazer uma grande diferença.

Quanto a mim, no que diz respeito a continuar publicando ideias pró-vida, pró-liberdade, pró-diversidade, você produziu uma onda de encorajamento.

Beijo carinhoso,
Sergio Viula
http://www.foradoarmario.net

Åsa Heuser - Uma ateia de bom humor disse...

Conheço bem a história de Sherazade, a comparação é bem apropriada.
Beijão!

Suely disse...

Eu tinha visto e postado no fb. Muito legal. Um abraço, flor.

RICARDO AGUIEIRAS disse...

Lindo, Ivone! Fiquei emocionado! As palavras, essas deusas e suas forças transgressoras, ora rompem diques, ora tapam o furo que provocaria um desastre! E você escreve muito bem! Sherazade precisou de mil e uma noites, você fez muito, já, antes.
Beijo carinhoso e emocionado!
Ricardo Aguieiras
aguieiras2002@yahoo.com.br

Ulisses disse...

Oi, Ivone!
Adorei também o texto!
Tocou-me como ser humano, como homem e como escritor.
Até porque recentemente esse passou a ser um de meus projetos: contar histórias sobre homens que amam homens (ainda que inventadas em minha imaginação!)

Um abraço,
Ulisses
www.homo-sapiens-erectus.blogspot.com

conhecimentos disse...

Obrigado Ivone Pita pelo seu jeito doce de ser!!

Junnior disse...

Pensei em transcrever uma parte de seu texto para desenvolver o meu comentário, mas forma tantas que achei importantes e positivas que concluí em omitir. Parabéns pelo espírito estimulador. Isso me animou bastante com relação a certo pensamentos/comportamentos alheios e negativos.
Beijo.