domingo, 16 de outubro de 2011 | 14:42 | 13 Comentários

A boa alma carnavalesca da Parada

Parada do Orgulho LGBT do Rio de Janeiro de 2011 (Foto: Arquivo/Gay1)Carnavalizaram a Parada. Parada do Orgulho LGBT do Rio de Janeiro (Foto: Arquivo 2011/Gay1)
Carnavalizaram a Parada. E que bom! Depois que Mikhail Bakhtin me explicou alguns conceitos, vejo a carnavalização com muito bons olhos e um grande sorriso de contentamento. Explicou-me Bakhtin que a carnavalização é essencialmente transgressora, subversiva e me mostrou a força de transformação política, social e cultural que há nisso. Com ele aprendi que o carnaval abarca todos, sem discriminação, sem limites, sem rótulos, que o carnaval horizontaliza, inclui. Descobri que o carnaval não pode ser confinado nem controlado: ele toma de assalto os espaços públicos, não segue regras nem respeita manuais de comportamento. Não cerceia, não cala, não amarra. O contrário disso: liberta, iguala, dá voz. Não há marginalização no carnaval, todos são trazidos para o centro da cena, inclusive quem no dia a dia vive à margem. O que fica calado, sufocado e castrado pela censura da cultura oficial, que dita o que é permitido e aceitável, toma conta do cenário. O bizarro, o diferente, o que não é tolerado frente à normatividade se torna o senhor do espetáculo, tem elevada sua auto-estima e adquire outra perspectiva de mundo. E é por tudo isso que não cabe a acusação de alienação no carnaval, pois ele não é pensado, ele é vivido. Não se reflete sobre novos modos de ver ou de viver, a experiência é concreta, é sensorial. A vida é vista e vivida de outra forma, uma forma radicalmente nova e revolucionária, pois não é apenas o modo de ver e viver que é novo, a própria inserção social adquire novos contornos e nada é mais revolucionário que isso, que essa transgressão: a vivência, na prática, da superação do cotidiano opressor.

Carnavalescos na Parada! Publico da 16ª Parada do Orgulho LGBT do Rio de Janeiro de 2011 (Foto: Arquivo/Gay1)Carnavalescos na Parada! Publico da 16ª Parada LGBT do Rio (Foto: Arquivo 2011/Gay1)
A carnavalização promove metamorfoses, transexualidades, excentricidades, superação de limites. Masculino e feminino se misturam e se reinventam. Masculino e feminino não são suficientes. Enquadramentos não dão conta da tamanha diversidade, pluralidade e transgressão. Travestis, transexuais, lésbicas, gays e bissexuais ultrapassam o que se espera dos gêneros – nas roupas, nas vozes, nos modos de ser e agir. A tudo subvertemos. O mundo fica às avessas, caem as fronteiras entre o sagrado e o profano, entre o sublime e o vulgar. Não há mais obediência à ordem pré-estabelecida. Desejos são permitidos e liberados. Recorrendo à fantasia, à máscara ou ao desnudamento de modos, de roupas e de mascaramentos, todos podem revelar sua identidade mais legítima. A Parada é uma grande catarse coletiva. E isso, claro, é uma afronta aos moralistas, aos conservadores. E daí a importância do caráter carnavalesco da Parada: a livre expressão, o não-controle, o organismo vivo que cresce e se movimenta por si mesmo. Multifacetado, polifônico, polissêmico - liberto.

No carnaval, nenhum excesso é demais. Nenhuma transgressão ultrapassa os limites. A carnavalização reinventa modos de ser e estar no mundo. E aí é que o aspecto carnavalesco da parada é redentor. Nada é erro, nada é desvirtuante. Somos todos apenas seres humanos em busca da felicidade. Por isso mesmo é que apavoramos, assustamos, inibimos e agredimos os moralistas, os conservadores, os homofóbicos. Quanto mais nos mostramos, dançamos, gritamos, festejamos e não nos enquadramos em seus paradigmas, mais desafiamos a sociedade hipócrita e homofóbica que nos quer cercear o espaço, nos controlar o movimento, nos privar a sexualidade e nos tornar invisíveis. Nós quebramos tabus. Nosso carnaval viola o que é socialmente aceito, o que é comum, desloca significados, faz a vida adquirir outra configuração. Vamos às ruas e subvertemos a ordem imposta, vivenciando livremente sentimentos considerados pecaminosos e passíveis de punição.

Estando em grupo e à luz a do dia, imagine o inferno que vive aquele conservador tacanho, aquele moralista atrofiado, ao ver tanta gente na rua, à luz do dia, cantando e dançando, feliz, celebrando a vida e o amor que eles tanto querem e se esforçam para sufocar. Deve ser muito penoso. Por isso usam de toda artimanha para internalizarmos o moralismo que apregoam. Portanto, reflita bem sobre isso, reflita mesmo, preste atenção para não fazer o jogo do inimigo, não carregue o opressor dentro de si, não reproduza o seu discurso, deixe que os outros vivam o que desejam e precisam viver. Muitos não sabem o quanto podem ser felizes, o quanto podem ser livres, nem o quanto podem ter de apoio, muito menos quantos somos. Muitos se sentem absolutamente solitários e oprimidos e outros tantos terminam por achar que não há saída. A Parada mostra que ninguém está só, que há lugar para todos e que a vida é possível. Quantos se lembram da sensação de descobrir que não estava só e do que isso significou? Então, relaxe e deixe que a Parada tenha suas funções política, cultural e social. Ou faça muito melhor: não relaxe! Corra e participe da maior quantidade de Paradas e manifestações que você puder e participe ativamente de grandes transformações: subverta, transgrida, revolucione!



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13 comentários:

João Paulo disse...

Texto perfeito, e bem colocado a posição da escritora e das imagens. Parabéns curti.

Papai Gay disse...

Eu fui nessa parada do Rio. Concordo com cada palavra. Ano passado fiz um post no "Papaigay" entitulado " Tem putaria na Parada Gay sim, e daí? " . Tenho apenas uma observação a fazer: Só as classes mais baixas compareceram ao evento, as figuras mais "estranhas". Acho isso lastimável. Parece que o discurso do inimigo já contaminou os gays mais "descolados". Uma pena.

pedro disse...

A maioria das criticas a parada são a respeito de sua carnavalização, quando na verdade a própria festa já é uma forte resposta ao ódio homofóbico. Tanto que agora os parlamentares homofóbicos estão mudando a estratégia para segregar os homossexuais.

RICARDO AGUIEIRAS disse...

Ah, Ivone, falar o que , se concordo com tudo , neste + um texto seu pra lá de brilhante. E extremamente necessário. Vou compartilhar em um monte de lugares, ok?
Na verdade, sinto um grande orgulho de mim mesmo ao ler teu texto, por que eu tentei muito e, muitas vezes, consegui transformar cada dia da minha vida, cada instante, num puro carnaval. O pseudo intelectual e "diplomata" pago com a grana do povo ALEXANDRE VIDAL PORTO, deveria ler esse texto seu, mil vezes mil e depois começar de novo. Não há fantasia mais horrenda que eu vestir terno e gravata ( mulher pode.... em mulher fica lindo! Vide Marlene Dietrich), por que terno e gravata não é fantasia, é convenção, é dogma, é prisão. Assim como é prisão "ser discreto" , coisa tão valorizada, hoje em dia, onde sentimentos são só no carnaval, no dia a dia basta uma atitude fria e cheia de classe (grades de prisão), aí você será literalmente adorado. Repito, para finalizar, palavras de Oscar Wilde, que usava na lapela não um cravo comportado, mas um girassol: " Uma sociedade que não permite o escândalo, não merece respeito"... Um grande beijo emocionado, emocionado por que eu sou um felizardo por ter lido isso.

Anônimo disse...

lindo :)

Yon disse...

Parabéns mais uma vez, fico boquiaberto a cada texto seu, perfeito!

Equipe Diversidade Católica disse...

Engraçado, já tínhamos lido seu texto no Blog do Pablo, que citou apenas a fonte como Gay1, sem autoria nem link. E agora descobrimos que o texto é seu... rs... Pelo menos sabemos que somos coerentes no nosso gosto e critérios de publicação, né? rs Já estava programado para reprodução no nosso blog em 26/10, agora vai com a autoria e link originais corretos, hehehehehe.
Bjs, Ivone! :-)

Paz Universal disse...

Excelente!!!!!

subversiveopendiscoursebr disse...

Eu até concordo se tomarmos o carnaval isoladamente, o problema é nos referirmos a parada que historicamente nasceu como um evento ativista de protesto. Nesse sentido, a carnavalização é alienadora para mim sim, pois modifica o objetivo politico da parada fazendo com que haja necessidade de muitos outros protestos pelos direitos LGBT além da parada como a marcha pelo estado laico, marcha da liberdade, marcha contra homofobia etc.Então, eu não vejo problema na parada se tornar em um grande carnaval - no que concordo com vc que tem um aspecto inclusivo, subversivo, transgressor - porém precisamos de outros eventos ativistas de protestos para reivindicar os direitos LGBT's, porquanto a parada não daria mais conta, muito embora a parada ainda seja referencia de maior evento ativista pró-direitos LGBT.
Vamos lembrar também que a parada de SP tem repetidamente agredido os outros movimentos, em especial o Lésbico e @s Feministas, com sua arrogância e não-inclusividade. Nem tudo São Flores, Ivone Pita...

Dorothy Lavigne disse...

Fiquei emocionad@. Pena que a Parada é só uma vez por ano.

joao w nery disse...

Brilhante Ivone, texto enxutoe bem "queer". A parada é mais que gay, é de todos os trangêneros, que se encontram num espaço livre para denunciar, como cada beijo, com cada ato que transgride, que excede, que denuncia estas normas regulatórias do mundo heterocentrista.
Parabéns!bjs do joão

guilherme andrade disse...

I ivone maldita (tu escreve muitoooo meu ).
viva a carnavalização da parada e tambem de todos nossos dias as pessoas tem que entende que o gay da novela não e o real.
viva o anarquismo

Lucas disse...

Parabéns pelo texto Ivone! É muito revigorante ler um texto tão bom assim logo pela manhã, indo pra mais um dia de luta.

Subversiveopendicourse (acho que é assim), não concordo com essa separação entre eventos de "festa" e eventos "militantes". Me lembrou o texto do Edward MacRae "Os respeitáveis militantes e as bichas loucas" no qual ele critica justamente esse tipo de segregação dentro do movimento lgbt