terça-feira, 25 de outubro de 2011 | 22:44 | 18 Comentários

A ostensiva onipresença da homofobia

A violência homofóbica está em todos os lugares. Em nossas próprias casas, em nossas famílias, na escola, no trabalho, na rua, pode estar em um ônibus, no cinema, no teatro, na praia ou em uma caminhada pelo calçadão. A violência homofóbica tem muitas formas e graus de expressão e não tem alvo certo. Como toda violência, torna-se descontrolada e, incontrolável, atinge qualquer um, em qualquer lugar e sob qualquer circunstância. A homofobia é um monstro cruel e de muitas faces - uma criatura implacável, de muitos braços, muitas pernas e muitas cabeças – vazias ou cheias de questões mal resolvidas, de ordem sexual, psicológica e social, perpassa todas as classes, todas as instâncias, tem muitas habilidades e acha até que pode ficar invisível, passar despercebida. Não, não fica. Ela passa despercebida apenas aos mais desavisados. Para nós, seus alvos preferidos, mas não exclusivos, ela é bem chamativa, feia e assustadora.

E, sim, temos medo. Muito medo. Não um medo infundado, paranóico, inventado ou apenas suposto. Nosso medo é muito concreto e nos chega através de palavras violentas, cerceamentos, sangue, dentes arrancados, carne rasgada, órgãos esmagados e ossos quebrados, quando não com a cara da morte. Mas depois tudo se transforma em estatística. E eu quero rostos, quero vozes, quero histórias. Eu quero ver a gente que só quer amar. Quero ver as pessoas que por ousarem ser quem são, foram agredidas, apanharam e sobreviveram. Quero ver como carregam suas dores. Quero ver como andam pelo mundo, como caminham entre as gentes. Como olham para o mundo, o que pensam. Quero que nos digam por quais transformações passaram. Quero que venham a público falarem de seu enfrentamento cotidiano do medo, do rancor, do constrangimento, da vergonha, da raiva, da sensação de impotência. Todas essas coisas que ninguém quer ver, das quais ninguém quer saber.

A violência que sofremos nos chega sob tantas formas e por tanto tempo. Quando cada caso de agressão, de desrespeito, de morte, de ofensa de negação de direitos termina em apenas um apanhado de números. Quando anúncios espalhados em outdoors dizem que não deveríamos existir. Quando todos nos dizem quem podemos ou não amar. Quando por toda nossa infância, adolescência e juventude nos cobram a respeito de quem namoramos. Quando não podemos ser quem somos no trabalho. Quando temos de esconder quem somos na escola. Quando somos perseguidos na vizinhança, na família, no colégio, na faculdade. Quando procuram e propõem nossa cura. Quando não podemos beijar livremente quem amamos nas ruas. Quando andar de mãos dadas se torna uma temeridade. Quando mesmo um falar ao telefone precisa ser cercado de cuidados e disfarces. Quando nos apontam por nossas roupas, quando somos as personagens principais de piadas caricaturais, ofensivas, que ridicularizam e estigmatizam.

Em todos os modelos de vida e janelas para o mundo, seja na TV, em filmes, revistas ou qualquer outro meio, se não somos estigmatizados ou esmagados pela heteronormatividade, sofremos, no mínimo, omissão. Desde muito cedo, de lembranças imemoriais, nos ensinam que somos um erro, um pecado, uma doença, uma abominação, uma aberração, uma perversão ou quaisquer outros dos tantos nomes com os quais se esmeram em nos rotular. Por tudo isso, é surpreendente que resistamos tanto a tantas intimidações, sem nos tornarmos pessoas absolutamente inseguras, vulneráveis e de baixíssima auto-estima. É incrível superarmos tanta estigmatização e não aceitarmos viver segregados. É de uma força admirável que consigamos construir relações afetivas saudáveis, vidas profissionais de sucesso, carreiras sólidas, amizades duradouras e constituir família. É fantástico não enlouquecermos, não sucumbirmos à opressão que nos é imposta desde nossa mais tenra idade, sem data para término e por todos os dias de nossas vidas. É absolutamente admirável nosso enfrentamento diário e mais ainda por se dar entre risos, danças, amores, alegria e uma inabalável crença em um futuro melhor. Sim, termine de ler este texto, corra para o espelho, se olhe bem nos olhos, olhe bem mesmo, fixamente, e vá lá, você tem todo o direito de dizer: eu sou foda!


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18 comentários:

Priscila disse...

Seu texto invade, incomoda, angustia, perturba, revira, inquieta...e por isso mesmo não me canso de lê-lo.

Muito obrigada, sempre.

Beijo
Pri

RICARDO AGUIEIRAS disse...

Ah, Ivone, falar o que, quando você, de forma superlativa, já disse tudo... Quant@s de nós nos sentimos na contramão da vida e temos que, a vida inteira e cotidianamente, subir a escada rolante por onde se desce.E só, somente e apenas, por causa dos preconceitos. Mas a gente sobe! E, se preciso for, subimos até pulando os degraus. Sinto um orgulho imenso em tê-la conhecido. Hoje sou melhor e você tem participação nisso. Ah, tô compartilhando...
Beijo!

Cizi disse...

Ivone como eu sempre digo, sabias palavras. Parabéns =D

Cizi disse...

Como eu sempre digo, Sabias palavras Ivone. Parabéns!

Moodlocustus disse...

vamu divulgar e rettwetar!

Testosteronas em fúria disse...

lágrimas, lágrimas e mais lágrimas. não comsigo descrever o que li agora. só minhas lágrimas gritam de orgulho por ser gay, assumido e jogado pra fora de casa desde os 16 anos... vc é incrivel... obrigado por existir...

ps: te add no face XD e tenho um blog se puder me dizer o que achou agradeceria muito, sua opinião será muito importante pra mim... obrigado msm!!!

Yon disse...

Ivone, seu texto de palavras retas, certas,diretas, de um momento Propício, que me fez refletir e nos prende do início ao fim. PARABÉNS!

Papai Gay disse...

Visceral, como tudo que amo. Parabéns!

ANA CRISTINA CARDOSO DOS SANTOS disse...

Seu texto mais uma vez e foda. A homofobia estar tao exacerbada que hoje em dia duas amigas, ou ate mesmo Mae e filha Nao podem demonstrar carinho publicamente sem o temor de uma represalia violenta!

Anônimo disse...

Texto lindo, escrito com muita sensibilidade. Do princípio ao fim só lágrimas quentes no meu rosto. Sou mãe e também sofro por tabela pelo meu filho e por todas as pessoas que passam por isso.

Anônimo disse...

textos cada dia mais lindos Ivone. Bjss..lu_ajuse

Sergio Viula disse...

Parabéns! Arrasou de novo!

Beijo,
Sergio Viula
Blog Fora do Armário

Anônimo disse...

Uma das coisas mais verdadeiras que eu já li!

Anônimo disse...

ola papai gay ,poxa voce nao precisava de ser grosseiro com a Ana Jatoba,afinal ela e uma profissional muito competente eu sou gay e aceitei aquelas criticas,pois as recebi como criticas construtivas ,para ver em mim o que posso melhorar como um ser humano e nao como mais um gay fundamentalista.
Abracos de Marlon Duarte

Anônimo disse...

ola galera!

Anônimo disse...

Viceral, a unica palavra que quase define o seu texto. Parabéns.Como mãe, vivo preocupada com a exagerada e descontrolada homofobia dos dias de hoje e não pude deixar de me emocionar com seu texto.bj
Ana

Carlos Eduardo Borges disse...

Ivone, ainda estou com os olhos cheios de lagrimas. E olhe que esperei alguns minutos para poder escrever este comentario, tao forte foi a emocao que senti. Voce e demais. Consegue expressar de forma extraordinaria tudo que sentimos e pelo que passamos. Sinto imensa alegria e orgulho por poder ter te conhecido. Amo voce e tudo que voce escreve.

LUNNA TBG disse...

Cara Ivone são por essas e outras qualidades que aprendi muito com vc, atra-vez dos nossos embates santos, pois discordávamos de certas questões e pontos de vista, mais jamais da nossa luta por dignidade, respeito e da igualdade sexual, Hoje te respeito e tenho uma profunda admiração por tÍ, pois te vejo muito mais parecida comigo do que antes. Bjs LUNNA BG