segunda-feira, 24 de outubro de 2011 | 21:27 | 2 Comentários

A Revista TRIP e sua viagem pela Sexualidade e a Inclusão


Gostaria de parabenizar o excelente trabalho editorial da Revista TRIP do mês de outubro que ousou com coragem e seriedade – palavras que parecem um pouco obsoletas no cenário jornalístico nacional – colocar em sua capa a temática da sexualidade.

A viagem começa pelo mundo mais do que performático de José Celso Martinez. Que se autoexplica pela sua insólita viagem teatralizada pela sexualidade sempre presente em suas peças. Definir-se para ele é um constante devir. Espetacular a reportagem feita por Otávio Dias e o ensaio fotográfico feito pelo Gabriel Rinaldi em que José Celso incorpora uma transmutação de si, nem homem, nem velho, nem jovem, nem mulher, ou tudo junto quando se vê segurando suas próprias tetas existenciais. Impagável. E para não deixar de citá-lo: “Sinto dificuldade de conseguir coisas que outros conseguem com facilidade. Depois de morto, talvez, seja mais fácil. Mas eu gosto da vida.” ( veja o vídeo abaixo )

Não posso deixar de começar este texto sem enfatizar que o mérito vai para o trabalho do editor-chefe Paulo Lima e todo cast de jornalistas, repórteres e fotógrafos.

Em especial, gostaria de citar Lia Hama em suas matérias: Até quando - que adentra na discussão da criminalização da homofobia - e Por que a homossexualidade incomoda tanto? Esta última trata-se de uma entrevista feita por ela ao psicanalista Contardo Calligaris o qual revela, sem os achismos rotineiros, de como a psicologia hodierna trata do assunto da sexualidade. Infelizmente o enfoque sobre a homossexualidade ainda é de fonte de preconceitos, radicalismos, e, por que não incompreensões. A entrevista é politicamente correta, mas não envereda pela hipocrisia na qual o termo, hoje em dia, tem sido utilizado. Sobressaíram-se, poeticamente, as afirmações de sua entrevista do tipo: “O que todo mundo sabe hoje é que genética não é destino de ninguém!” ou como resumiu seu pensamento em relação à questão de gênero: “O gênero não é o mais importante para definir a sexualidade de alguém. A fantasia define muito mais.” E foi assim ao longo da revista em que a fantasia não mais povoa somente o imaginário das pessoas, ela pode ser de fato uma realidade plausível e construída socialmente. Não há mais limites para nossa sexualidade. Às vezes não entender faz parte do processo. Senão vejamos a reportagem de Lino Bocchini que enveredou pelo mundo imagético das bonecas, que normalmente são relegadas a realizar suas fantasias de realidade na imaginação dos outros. A reportagem mostrou Wesley T- Lover que declara sua orientação sexual sem os contornos limítrofes da heterossexualidade. Apaixonou-se pelo universo das travestis; ou melhor dizendo, pelas travestis. Não há um rol de regras a ser seguido. Como falou Calligaris esta questão está mais bem definida na improbabilidade falível dos conceitos. E lá no final da entrevista Wesley revela: “Não tenho medo de assumir meu gosto, não preciso ter vida dupla nem esconder nada. Isso é tudo normal pra mim.” Normal soa tão relativo quando relativizamos nosso preconceito. Esta idéia do que é normal nos faz encarar como é estranho o que é nos é naturalmente familiar. A normalidade tem a ver com a quebra do que nos sempre foi familiar.

Continuei meu passeio pela revista e ainda pra mim alguns conceitos se desfaziam na mera apropriação que sempre fiz de meu dicionário interno. Um homem com vagina, também de Lino Bocchini, me fez pensar o que de fato era uma vagina na minha concepção houaissiana. Entendi que tudo isso do que é falo, do que é vagina está sempre em nossas cabeças e não no papel. Estamos sempre usando nossas vaginas imaginárias e nossos falos voadores. Não há necessidade de encararmos essas idéias e conceitos de forma adstrita ao papel social de cada um. A sexualidade varia muito mais do que uma matemática – na qual se prioriza a conjunção certa de equações que sempre dependeram de incógnitas –, muito mais do que uma biologia que patologiza a multiplicidade de formas de amar e ver o mundo.

E ainda por esse mundo que não para de manifestar suas nuances, temos também os relatos absurdos dos estupros corretivos na África – matéria também realizada por Lino Bocchini. A reportagem revela o verdadeiro sentimento de prisão em que os jamaicanos gays vivem constantemente. O sentimento de um sítio de si mesmo reflete o pior sentido que a sexualidade pode ter: o medo e a culpa juntas – o Word me sugeriu juntos, mas preferi o feminino.

Até quando? Fica a mesma pergunta feita antes.

(..)

Então, eis a capa, a matéria de capa: o beijo de surfistas. A desconstrução é feita dos estereótipos nos quais sempre empregamos nosso dicionário de bolso para revelar nossos verdadeiros sentidos. A reportagem de Sara Stopazzoli estampa a nossa hipocrisia em ainda acreditar em formas prontas para definir nossa sexualidade. Intitulada: Entre tubos e tabus – metáfora utilizada pela repórter revela em poucas palavras toda a complexidade que envolve o tema, numa simbologia certeira que me retira o poder de descrever, neste texto, uma continuidade a uma comparação tão bem elaborada.  De novo somos levados a quebrar nossas ondas numa praia ainda repleta de incompreensões e idéias antiquadas.

Ao fim da Revista encontro um elenco de pessoas que fazem a diferença. Pessoas que como a própria revista usou: Amam pela diferença!  E reencontro-me com o Deputado Jean Wyllys que muito tem feito para diminuir essas diferenças abissais que encontramos nos tortuosos caminhos do planalto central, entre os seus; e entre o verdadeiro sentido da palavra cidadania. Ele tem feito muito para clarear esse caminho e torná-lo mais do que acessível.

Encerro minha viagem que fiz pela Revista TRIP deste mês a qual me deixou mais distante daqueles conceitos que aprendi em casa, na igreja e no mundo em que vivia. Aprendi mais uma vez a “gendrar” meu olhar para questões que nunca antes tive o ímpeto de procurar o real significado.
Fica a dica para quem ainda não leu a Revista que no seu editorial, dentre muitos princípios que a norteiam, elenca o Princípio da Diversidade: “Conhecer, entender, respeitar e apreciar outras formas de pensamento, modelos de vida, culturas, filosofias, raças, opiniões, cores, expressões artísticas e físicas, para compartilhar valores e somar vivências.”

Parabéns reiterados a revista que nos convida para uma viagem sem guias, nem rumos certos.



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2 comentários:

Guto Angélico disse...

A revista é um grande avanço! E sua matéria é fantástica. Examinou cada matéria. Confesso que ainda não li a revista mas, ler sua visão me deu ainda mais vontade. Parabens!

Roberto Muniz Dias disse...

Prezado Guto,

Nao deu pra falar de toda a revista. Faltaram as matérias dos ursos, de uma comunidade naturalista e pansexual/ e ainda dos textos maravilhosos assinados por diversos artistas e profissionais.
Mesmo assim a leitura eh obrigatória.
Abracos,

Roberto Muniz Dias