sexta-feira, 25 de novembro de 2011 | 17:01 | 8 Comentários

Crô: a imagem do gay brasileiro? Craro, Craúdia...

Crô: a imagem do gay brasileiro? Craro, Craúdia (Foto: Google Imagens)
Não é de hoje que a televisão vem perdendo cada vez mais a audiência. Isso se deve, acredito, em grande parte à internet: uma mídia que tem se revelado muito mais interessante por diversos fatores, inclusive o de ter o conteúdo da televisão disponível à qualquer horário e de acordo com a vontade de quem está buscando esta ou aquela informação. Outra questão que, na minha opinião, faz os números do Ibope não serem tão agradáveis aos donos das emissoras é o fato de a televisão estar fazendo um mais do mesmo sem fim... Enfim...

No entanto, um amigo comentou comigo sobre uma entrevista que Marcelo Serrado, o Crô de Fina Estampa, teria dado no Domingão do Faustão no último domingo. Até vi, uma vez ou outra, no intervalo comercial a propaganda do programa de Fausto Silva anunciando suas atrações para o domingo.

Como disse, não assisti, mas um amigo comentou comigo e disse que a entrevista tinha sido bem uó... Para ele (meu amigo) tinha ficado a impressão de que a entrevista tinha sido uma ratificação do belo trabalho desempenhado por Marcelo Serrado. Procurei na internet e encontrei um link que me levou à entrevista. São quase trinta minutos de puro marketing pessoal – ou institucional, no caso da Rede Globo.

Digo isso pois, do começo ao fim, foi uma constante re-afirmação sobre a interpretação de Serrado, dizendo que ele estava fazendo um “papel brilhante” com o Crô. E ainda, a produção colheu depoimentos de especialistas no assunto (sexualidade, antropologia, pedagogia e afins) para assinar em baixo a afirmação de Fausto – que é a fala de sua emissora – que o simples fato de colocar em uma novela um personagem homossexual já é uma imensa contribuição para as minorias, sobretudo as minorias sexuais. Será mesmo?


Primeiro que Crô não passa de um bobo da corte. O personagem vive à sombra de uma mulher mal amada e mau caráter e vive se arrastando e se humilhando como se fosse sua obrigação fazer isso pelo fato dela “suportar” sua sexualidade. Além disso, o personagem é cheio de clichês e tiques que não traduzem a maioria dos homossexuais. Existem os Crôs na vida real? Claro que sim, num momento ou outro, até a mais séria das barbies brinca de ser afetado. E há, também, os que são mais afetados, delicados e extrovertidos. Viva a diversidade... Graças a Deus cada um é de um jeito. O fato é que Crô representa uma visão bastante determinista de um homossexual, pelo menos para o senso comum. Ele é o estereótipo da gay alegre, divertida e animada que todos amam: da criança à vovozinha. Mas porque todos amam esse tipo de gay? Por que ele é esterilizado, em outras palavras, ele é gay, mas é limpinho. Ele não namora, não transa, não tem sentimentos, desejos sexuais... Pelo menos não como os demais personagens da novela, ditos normais.

Eu sinceramente me pergunto: o que Aguinaldo Silva tem na cabeça? Não consigo entender, mona...

O cara participou do inicio no movimento gay no Brasil, escreveu para o Lampião da Esquina junto com outros jornalistas e escritores gays em 1978. O jornal foi um marco na mídia alternativa em relação ao tratamento que dava aos assuntos ligados à sexualidade, sobretudo, à homossexualidade. E passados pouco mais de 30 anos, ele vem com esse Crô??? Por favor, né Aguinaldo??? Por favor...

Em 1978, existia uma dicotomia de termos, corrente entre os gays, que era o bicha/bofe. Bicha seria o gay (geralmente era o cara sexualmente passivo e por isso, próximo de uma suposta feminilidade por conta de ser penetrado). Do outro lado tinha o bofe (que era considerado homem, heterossexual, afinal, ele só penetrava... Ou seja, continuava fazendo o papel esperado de um homem: penetrar. Aguinaldo, junto com os outros jornalistas do Lampião fizeram um trabalho formidável para desmistificar esta dicotomia e mostrar que os gays eram todos iguais, indiferente da posição sexual ou do comportamento mais ou menos masculinizado. Só que agora, vem ele, Serrado, Faustão e companhia dizendo que ele representa o homossexual? Ah tá... É sim... Sei!!! A pergunta que sempre me faço é: quando a Rede Globo e a televisão brasileira apresentarão um gay de fato, um gay que trabalha, que estuda, que tem sentimentos, que beija na boca, que transa, que tem fetiche... Exatamente como são representados os heterossexuais???

Em tempo, vale dizer que, enquanto escrevia este artigo, duas cenas no capítulo do dia 24/11 me deixaram estarrecida. A primeira foi quando Esther, numa briga com a jornalista Marcela diz que ela não é mulher, que é uma travesti e que homem não gosta de traveco. Numa segunda cena, no mesmo capítulo, Rafa que promete à Amália que vai se entregar à polícia, ao chegar à delegacia, aparecem duas supostas travestis sendo presas e levadas por um policial. Será que o capítulo de hoje era uma caça às travestis???

Se você tiver tempo sobrando, estômago e nada mais interessante para fazer, confira a tediosa entrevista que Marcelo Serrado deu ao Faustão neste vídeo abaixo.

Mas eu não recomendo... (risos)

Beijo, beijo, beijo... Fui...


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8 comentários:

Anônimo disse...

Não tenho tempo sobrando, não tenho estômago e o melhor, tenho coisas muito mais importante pra fazer...E vc????Aguentou ver isso e nos sugerir???aaaaaaafffff

Yon disse...

Que bom que vc teve tempo e fez esse ótimo texto Cindy, ao contrário do anônimo ai de cima, eu achei muito valido seu artigo, pois toda forma de preconceito exposta pelos meios de comunicações, tem sim que ser divulgado. Parabéns e continue nos presenteando com suas matérias e textos maravilhosos!

Candid disse...

Concordo em gênero, número e grau com você Yon. Gostei muito do texto da Cindy. Ela fez uma análise perfeita acerca das características do personagem Crô. Parabéns Cindy!!!

Anônimo disse...

Primeira vez que entro nesse site. Gostei muito e concordo plenamente com a mensagem do post.
Não assisto à essa novela, mas toda vez que via os comerciais eu pensava a mesma coisa sobre isso.
O ator que interpreta este personagem disse que não está ali pra levantar nenhuma bandeira. Mas é óbvio! Uma pessoa que aceita um papel desse e atua com a perceptível intenção de ridicularizar os gays não pode estar fazendo nada mais do que adicionando um "Papel Gay" ao seu currículo.

@AtomicBlue disse...

"Primeiro que Crô não passa de um bobo da corte. O personagem vive à sombra de uma mulher mal amada e mau caráter e vive se arrastando e se humilhando como se fosse sua obrigação fazer isso pelo fato dela “suportar” sua sexualidade. Além disso, o personagem é cheio de clichês e tiques que não traduzem a maioria dos homossexuais."

Obrigado, Cindy. Só tenho a agradecer...

Anônimo disse...

Existem varios tipos de gays e a globo mostra o afeminado e o submisso, ao invés do gay que usa roupa normal, não demostra a sua orientação e tem varios amigos heteros para acompanhar no dia a dia

Anônimo disse...

ótimo post, vc fez uma excelente análise, tb penso da mesma forma, pelo menos eu não me sinto nada representado por este personagem e mesmo que não seja o objetivo do autor representar pessoas reais por meio de suas criações, o famigerado "Crô" ao meu ver só reforça o equívoco das pessoas em acreditar que todo gay é assim!!

Breno Ribeiro disse...

Eu discordo de quase todo o artigo.
Acompanhei o tal capítulo em que Esther chama Marcela Coutinho de travesti, em tom debochado. Concordo que o autor não deveria ter usado essa frase.(EMBORA ELE APENAS REVISE O TEXTO QUE É ESCRITO POR UM COLABORADOR).
Mas, enfim. Quanto ao Serrado o que tenho a dizer é que o Domingão do Faustão tinha como objetivo falar da boa atuação do ator e não levantar alguma bandeira. Tanto, que tiveram depoimentos para ele, como em qualquer ator que não vá ao programa apenas pra falar do personagem.
E SIM, Crô tem um namorado na novela das nove, Dona Cindy.

Conclusão que eu tiro do seu post querida, é que, ao contrário do que nos mostra o bom senso; a maioria dos gays, inclusive a dona do post acredita que toda novela onde exista um personagem gay deve levantar a bandeira e fazer campanha contra homofobia. O que eu nem preciso dizer que é uma grande tolice, já que o escritor é livre pra criar o que bem entender.