quarta-feira, 23 de novembro de 2011 | 14:38 | 15 Comentários

Homonormatividade. Porque gay também é limpinho

Não, não é heteronormatividade, você não leu errado no título, é homonormatividade mesmo. Não é uma questão de se portar de um jeito a ser aceito pelos heterossexuais, mas o fato de que muitos gays sabem exatamente como todos os outros deveriam ser e se comportar. Impressiona a fórmula pronta, a estética fechada, a educação universal. Gay tem que ser viado, bicha nunca. Lésbica sim, sapatão jamais. Viado é jovem, atlético ou, no mínimo, com o corpo bem cuidado – em forma, pois viado que se preze sempre frequenta academia. Viado é educado, não usa palavras de baixo calão, não fala baixaria, não faz saliências em local público, não beija a boca de vários, não é promíscuo. Viado não tem voz fina, não tem trejeitos, não é caricato, não é espalhafatoso, não é chegado a bizarrices. E em bizarrices encontramos de tudo: ser “afeminado”, vestir-se de mulher, por seios, por silicone, pintar unhas, usar maquiagem, gostar de salto alto, ser transgênero e tudo o mais que fuja à imagem de um homem gay “equilibrado”. E o mesmo para as lésbicas. Lésbica também é pura feminilidade, não é como um sapatão. Sapatão parece homem, não cuida das unhas nem do cabelo, não usa saia nem vestido, é agressiva, não é delicada como uma mulher. Fala com voz grossa, anda de um jeito pesado, é uma figura caricata. E o que dizer quando é trans? Gente que retira ou põe seios e pênis. Tudo muito estranho.


Mas deveria existir um padrão de comportamento gay? E quem não se enquadrasse, deveria ser considerado inadequado? Ora, em todos os grupos sociais, existe todo tipo de pessoa. Por que com gays deveria ser diferente? Isso é mais uma pecha jogada em nossos ombros que não nos cabe. Esse é mais um discurso opressor que devemos tomar cuidado para não internalizar. Quem nos oprime é que usa isso: essa moral única, essa normatividade, estes tais valores que são ditos e tratados como se fossem universais: isso pode, aquilo não, pode agir assim, daquele outro jeito não, pode se vestir assim, daquela forma, não. Considero muitíssimo lamentável esses julgamentos sobre o jeito "do outro", quando a própria pessoa não tem controle sobre seu próprio gestual. Ela apenas é o que é - nos gestos, no modo de andar, na voz, no jeito de falar etc. e, com certeza absoluta, seus modos e suas falas são absolutamente reprováveis por outros - também se enquadram em um estereótipo. Todos nós nos enquadramos. E todos somos achincalhados por outro grupo social, ainda que não saibamos. Mas quando é conosco, queremos que compreendam que é apenas o que somos. Então, por que quando é com o outro quero que ele se "endireite"? Este não é o justamente o discurso de quem nos oprime? Defender ideias conservadoras e moralistas, ditando um padrão de comportamento idealizado, serve apenas para promover a exclusão de quem não se enquadra. E o que nós sofremos com a heteronormatividade senão exigências, pressões e desqualificações para que vivamos limitados a determinadas regras de conduta social? Um moralismo tosco que estigmatiza e marginaliza, sem respeitar diferenças? Então, excluídos que somos também seremos agentes de exclusão? E de nossos próprios pares? Eu tento não ser, pois, afinal, não é por diversidade que lutamos? Pelo respeito às diferenças?

Quem considera se esta ou aquela postura ou linguagem é chula são os conservadores, os moralistas, que dizem o que é certo ou errado, como as pessoas devem ou não se comportar, como se houvesse uma moral única, imutável e unânime, inclusive, são os mesmos que não reconhecem travestis e transexuais, o que dizem as razões para que tais pessoas não devessem existir. Portanto, sim, é reprodução do discurso opressor, mas frente a outro grupo. E devemos tomar muito cuidado para não assimilarmos o discurso opressor nem resquícios dele, pois chulo mesmo é ser preconceituoso quando se é alvo de preconceitos. Chula é a linguagem que exclui, que estigmatiza, que rotula, que aparta. Chulos são os gestos de exclusão, de agressão. Escandalosos são os crimes cometidos contra nós. Escandalosas são as agressões que sofremos e nossas cidadanias diminuídas. Escandaloso é ter nossos direitos usurpados. Chulos e escandalosamente imorais são aqueles que querem nos manter invisíveis e à margem da sociedade que cotidianamente também ajudamos a construir e manter, nos relegando a ter somente todos os deveres, mas não todos os direitos. O restante é diversidade. Apenas diversidade. A questão é saber olhar e respeitar o diverso, ainda que não o compreendamos, assim como queremos que nos vejam e nos respeitem.

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15 comentários:

RICARDO AGUIEIRAS disse...

Realmente, ainda bem que eu, na minha vida, sempre me posicionei contra todos os padrões de "bom mocismo" e do que os outros e as outras consideram "chulo"... nesse ponto, até a Filosofia ajudou, já que Sartre falava: "O Inferno são os outros". Nunca me agradou a mera mudança de papéis, deixar de ser o oprimido para ser o opressor, do excluído ao exclusor. Acho isso uma burrice extrema, se me encontro em uma luta política tenho a obrigação de aprender com ela. Obrigado, Ivone Pita por mais essa brilhante reflexão!
Ricardo Aguieiras
aguieiras2002@yahoo.com.br

Anônimo disse...

PREFIRO SER FELIZ DO QUE SER CERTINHO!
MARCIO MIRANDA PEREIRA

Anônimo disse...

Belo texto! Acho muito bom levantar esse questionamento dentro da comunidade gay. Até porque, ser gay é uma coisa em comum à nós, mas não determina todas as outras coisas que temos de exclusivo e único, e que tornam a diversidade e o ser humano tão belos.

Oni Dots

Roberto Muniz Dias disse...

A bem da verdade, a lição de moral- há anos que não ouço essa palavra- é a questão do preconceito internalizado que carregamos.
Lembrei-me de uma propaganda que perguntava: "Qual a cor de seu preconceito?" Todos silenciavam, ou não sabiam o que dizer.
Parece que a mesma coisa se repete: "Que tipo de gay/lésbica é o correto?
Temos que ir minando essas cores e esses tipos, senão teremos criado o cânone da homonormatividade.O que é muito perigoso.
Ótimo texto Ivone, parabéns!

Abraços,

Roberto Muniz Dias
http://noposthumousparty.wordpress.com

Luan disse...

Perfeito o texto,min fez repensar algumas posições a respeito do outro.
Esse é mais um discurso opressor que devemos tomar cuidado para não internalizar. Quem nos oprime é que usa isso: essa moral única, essa normatividade...a mais pura verdade muito bom! parabéns!!

alessandrols disse...

Mais um belo texto da Ivone. Um libelo contra a padronização que a sociedade quer impor a todos aqueles que esta mesma sociedade julga como anormal. O segmento LGBT não é mais um grupo a ser tutelado e domesticado por aqueles que se julgam a reserva moral da nação Parabéns, Ivone por mais um grande texto - você está cada vez melhor.

joao w nery disse...

Mais que hormonormatividade,creio ser um texto para as pan-normatividades, já que abrange todas as identidades de gênero e orientações sexuais. As minorias também introjetam valores do grupo majoritário, quando, p.ex., a mãe negra puxa a orelha do filho, lhe pedindo para fazer "serviço de branco". Vou além, quando tomo conhecimento de que dentro do próprio movimento LGTB, encontramos discriminações e divisões sejam elas partidárias ou não. A nossa bandeira deveria, sobretudo, representar a união de todas as cores e só as mesclando, chegaremos ao branco da paz.

Equipe Diversidade Católica disse...

Demais, Ivone. Perfeitamente lúcido e eloquente. Parabéns por mais um belo texto. :-)

Beijos!

Aharom disse...

Como sempre, Ivone, um texto brilhante. Parabéns!

Antônio Mello disse...

Ninguém é gay, lésbica etc. Somos humanos. Eu sou humano. Tu és humano. Ele é humano. Nós somos humanos. Vós sois humanos. Eles são humanos. Orientação sexual é uma parte de nós.
Para uns, a mais importante. Para outros, nem tanto.
Mas, na guerra ideológica, querem dizer que todos somos ou não gays.
Pois eu não tenho orientação sexual homossexual, mas, ideologicamente, sou gay. Assim como sou ateu, graças a deus.

Murilo Araújo disse...

Ivone,

As suas reflexões são bastante sensatas, num belo texto... só que, como analista de discurso, chato com o uso das palavras, sinto que tendo a discordar do termo HOMOnormatividade, principalmente em função do que João Nery colocou logo acima: "As minorias também introjetam valores do grupo majoritário".

De meu ponto de vista, o tipo de opressão que os não-heterossexuais operam sobre o próprio grupo nada mais é que reflexo dos padrões de heteronormatividade a que todos estamos expostos, em nossa formação mesmo. "Pode ser gay, mas não pode deixar de ser homem. Pode ser lésbica, mas não pode deixar de ser mulher." E o que é homem, o que é mulher, não é determinado por uma norma "homossexista" - o que quer que isso signifique -, mas pela norma heterossexista estabelecida.

Manter-se dentro dos padrões é não questionar o que está majoritariamente colocado - é não "escandalizar". E os LGBTs por vezes reproduzem estes valores, é neste contexto que foram formados (e por vezes é sob estas condições que se "permite" a saída do armário e a mínima vivência que seja da própria experiência de sexualidade - o que é uma questão de debate muito profundo).

Nós também operamos a violência de que somos vítima. Mas acho que isso se dê muito mais através da reprodução de preconceitos hegemônicos do que da "criação" destes preconceitos dentro do próprio universo homossexual, como acho que o termo HOMOnormatividade dá a entender.

De todo modo, reitero, críticas válidas, e ótimas reflexões!

Abraço!

Moodlocustus disse...

o contrario tb eh valido!
sou veemente criticado pelos meus colegas por ser "bonzinho" e educado, ao passo que outros me criticam por eu ser delicado e afeminado sem ser espalhafatoso ("solta a franga fabio" dizem eles).
oras, meu jeito eh meu jeito e pronto! se nao to prejudicando ninguem (digo prejudicando realmente e nao com falacias do tipo "se uma crianca me ver vai se confundir...") que mal ha em eu ser eu mesmo?

Jarid Arraes disse...

Ivone, queridíssima minha, esse seu texto é tão lúcido e tão direto. Gostaria que todos os que precisam ler, o fizessem.

Cicero Edinaldo disse...

texto muito interessante. Por muito tempo tive que moldar o meu jeito para não ser descoberto. Evitava gestos e ações. Queria me afastar das caricaturas. Eu conseguir. Mas os dias passaram e eu fiquei sem "vida". A opressão era grande. Tive que tomar uma decisão. Assumir quem era. Enfrentei tudo e todos e me vestir com a liberdade. Sem mascaras, sem fingimentos...hoje sou apenas eu. Sem caricaturas. DESCARICATURADO.

Carlos Eduardo Borges disse...

Excelente seu texto Ivone, tocando num ponto pelo qual sempre me bati. Pessoalmente, nao tenho modos delicados, nem efeminados, mas tenho, sempre tive amigos que os tem e sempre fui muito criticado por isso justamente por outros gays, por namorados e por alguns familiares. Sempre escolhi meus amigos pelo encantamento que conseguem despertar em mim e sempre reagi com veemencia ao preconceito de outros gays em relacao aos chamados efeminados ou delicados. Nao ter atracao para namorar um, acho ate admissivel, do mesmo modo que se pode preferir loiros a morenos, baixinhos a altos, mas ter preconceito a eles como amigos acho inadmissivel.