segunda-feira, 21 de novembro de 2011 | 19:39 | 8 Comentários

A perigosa sacralização do ser...

Antes de qualquer coisa uma pergunta precisa ser feita, por mais óbvia que pareça: qual a diferença entre você leitor, eu, a Madonna ou Barack Obama? Acertou quem respondeu nenhuma. Claro, tirando as diferenças culturais e, sobretudo, as diferentes contas bancárias de cada um (vontade de ser Madonna, viu?!?!?). O fato é que todos somos meros e mortais seres humanos e nada além disto.

Recentemente a marca italiana Benetton lançou uma campanha que, claro, já tinha a intenção de chamar a atenção da mídia e da população geral. Através de montagens, a campanha intitulada “Unhate” (algo como “não odeie”, em português) mostra algumas personalidades atracadas em beijos pra lá da técnica televisiva... Entre as personalidades estão o presidente americano Barack Obama, Hugo Chavez e outros. Porém, a foto que vem dando certo ti-ti-ti é a do papa Bento XVI beijando Mohamed el Tayeb, imã da mesquita de Al Azhar no Cairo. O pior que a montagem é tão boa que dá a impressão de que os dois então até curtindo o os bons momentos e vão pedir uns bons drinks na sequência.

Papa Bento XVI com o Imã do Cairo, Safwad Hagazi (Foto: Divulgação)Papa Bento XVI com o Imã do Cairo, Safwad Hagazi (Foto: Divulgação)

E é claro que o Vaticano não ficaria calado. Através de seu porta-voz (que coisa mais antiga, né?). Enfim... Através de seu porta-voz Federico Lombardi, a igreja católica declarou que a campanha é uma “falta de respeito grave ao papa” e que é "contra a utilização inaceitável da imagem do santo padre, manipulada e instrumentalizada, como parte de uma campanha publicitária com finalidades comerciais".

Para mim, a questão vai muito além da utilização da imagem do pontífice para fins comerciais. O que me parece, na verdade, é que duas questões estão latentes neste caso.

A primeira delas é o fato de que a cultura moralista e castradora da igreja católica não digere muito bem uma imagem de seu chefe sendo representando se entregando aos prazeres mundanos, ainda mais com outro homem. Não devemos perder de vista que os homossexuais são as novas bruxas para a instituição, que se vale de um discurso “pró-família” para impedir o avanço dos direitos dos homossexuais ao redor do mundo. Me pergunto o que há de cristão nisso, mas enfim...

A segunda questão, que é mais perigosa que a primeira, no meu entendimento, é a sacralização do ser. Sabe aquela história que sua mãe falava: “... com Deus não se brinca”, sempre num tom ameaçador? É justamente o que acontece aqui. Com a imagem do papa não se brinca, pois ele não é um simples ser humano. Ele representa o próprio Deus aqui na Terra. É assim que a cúpula católica o quer definir e assim gravar no inconsciente coletivo. Mas não pra cima de mim, né fia??

Não sou contra nenhuma religião ou filosofia religiosa, mas daí a pensar que fulano ou beltrano é procurador de Deus, meu amor... Aí já é demais. Parto de um princípio bem simples: todos nós somos frutos de uma mesma criação, todos iguais... Cargos, funções e posições são meras criações humanas para sanar a megalomania de alguns!

Mas aí, meu bem, eu termino me perguntando: se a igreja católica e seus fiéis ficaram tão chocados com a imagem de Bento XVI beijando outro homem, porque esta mesma igreja e seus fiéis não ficam estarrecidos quando surgem as notícias de padres que abusam sexualmente de crianças? Será que eu é que sou louca ou os valores estão todos invertidos???

E depois travesti é que é bagunça, né? Sei...


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8 comentários:

Roberto Muniz Dias disse...

O ponto nevrálgico de seu texto, para mim, é este questão simbólica que acerca o Santo Papa. Se não me falha a memória, acho que existe uma presunção de pecado a todo mortal, mesmo que ele seja o papa. Salvo engano ele deve se confessar e se arrepender de seus pecados ainda em vida corrente cometidos. Por que - seguindo essas premissas da Igreja católica - ainda o representamos como Santo Papa? Não deve haver um processo de santificação? Pelo menos é o que sei de meu parco conhecimento.
Outro ponto abordado inteligentemente por você Cindy, é a questão dessa sacralização do ser. Para mim Deus sempre foi impiedoso, Jesus conseguiu amenizar as vontades do Pai se entregando por nós.
São questões simples que perpassam nosso cotidiano sem a devida atenção. Direito de imagem existe. O Papa tem o direito de se opor contra. Mas é comum nos países árabes os homens se cumprimentarem com beijos nos rostos. O papa, como poliglota cultural, deveria saber dessas referências culturais e pelos menos se abster de reforçar seu preconceito contra tudo aquilo que não reza sua bíblia.
A questão é sempre quem está por detrás das escritas, das sagradas escrituras...A saber: o homem, eterno pecador.
Ótima abordagem Cindy.
Congrats.

Roberto Muniz Dias
http://noposthumousparty.wordpress.com

Yon disse...

Fabuloso seu texto Cindy, mostra exatamente a realidade da hipocrisia e prepotência da Igreja Católica. Parabéns!

Cindy Butterfly disse...

Vale lembrar que, com esta sacralização em torno de uma figura religiosa, seja um papa, um pastor, um buda... Através deste processo, as pessoas que estão ao redor desta figura que acaba por se tornar mística, vira o único canal de comunicação entre os seres humanos e o Deus (ou deuseus) criadores.
É um desdobramento que vai ser o grande alicerce para as práticas mais sórdidas que vão desde o controle mental e emocional dos fiéis à exploração que frequentemente se vê quando se vende objetos a preços caríssimos em troca de benção.

Anônimo disse...

Acho que respeito é a palavra chave nesta questão, sou gay e cristão(aparentemente soa estranho essas características em conjunto)e acho que o direito de preservação da imagem deve ser mantido e respeitado, nem eu que sou homossexual admitiria minha exposição dessa maneira tão desrespeitosa, imagine um sacerdote que prega contra o homossexualismo.
Acho que todos temos o direito de ser respeitados, essa campanha ferio algo que para algumas pessoas é sagrado, como feriria a qualquer um se a imagem do pai ou da mãe fosse ridicularizada publicamente.
Foi uma ideia mais que infeliz foi no minimo lamentável.
Agradeço a todos que leram e que Deus nos proteja.
Douglas Vinicius Damasceno.

Bruno disse...

isso é no minimo uma falta de respeito, se fosse uma foto sua beijando uma mulher seu ordinario, você no minimo é uma criatura mal educada, que não merece o minimo respeito, engraçado que vocês podem falar o que quiserem da igreja mas ela não pode falar uma verdade sobre vocês ne!?
se dê ao respeito primeiro antes de criticar a Igreja e o santo padre o papa Bento XVI

Cindy Butterfly disse...

Bruno...
Eu beijo várias mulheres diariamente. Desde a minha mãe até minha amigas de trabalho. Não tenho o menor problema do mundo em beijar quem quer que seja na boca...
A Hebe distribuí selinhos. Não acho que um beijo seja tão ofensivo assim.
Mas a questão principal, não é o beijo, e sim seus desdobramentos ideológicos.
Agora eu te pergunto: o que é pior, uma foto dessas ou a vida de uma criança destroçada por um padre pedófilo que abusa sexualmente dela e este mesmo senhor não fazer absolutamente nada contra?

Anônimo disse...

Mas a questão que devemos colocar é que não devemos simplesmente justificar um erro com outro. Achei uma grande falta de respeito com o Papa e com toda a Igreja, com todos aqueles que acreditam e defendem os princípios cristãos e isso não tira o erro daquele padre que abusou alguma criança.
Realmente, não aceitamos bem a ideia da ridicularização feita com a imagem do querido Papa, mas isso não somente por ser ele, mas sendo qualquer pessoa! É questão de difamação da imagem de alguém, principalmente com alguém que busca viver a castidade de uma vocação religiosa, pois a montagem vai contra àquilo que a pessoa vive.
Acredito que a imagem que fazemos de Deus é um pouco distorcida do real, pois a partir de Jesus, Deus vem ao nosso encontro como um grande e MISERICORDIOSO PAI, alguém que nos tem MUITO AMOR, e a sacralização ocorre no sentido de termos o Papa como alguém que independente de tantos erros, como TODO ser HUMANO, BUSCA viver a santidade em sua VOCAÇÃO!
Não se trata de maior erro ou menor, se trata de RESPEITO!

Raquel

Anônimo disse...

Me desculpe minha acidez mental ou bipolaridade agressiva ( aquela que se adquire apos anos sofrer por buling, ou por acreditar fielmente que se em uma falange demoníaca dentro de você). Belo texto Cindy, parabéns. Justificar um erro com outro não leva a nada realmente, mas mostra a um ser humano o quanto ele pode estar errado. Mostrar a foto do pontífice num atraque e mais feia e inaceitável, do que a de pessoas que apanham simplesmente por amar ( ou a mídia mentiu ao dizer que dois rapazes foi agredido na paulista simplesmente por que não tinha nada que fazer?), ou piorar a divida histórica de massacres contra homossexuais, afirmando que amor só existe entre homem e mulher. Mas a questão aqui não e o beijo do papa ( coisa nada interessante) mas ate que ponto a igreja toma decisões por vocês queridos fanáticos, que são considerados " mentes autônomas e laica "? pois se entendi bem ( ta mais que nas fuças) a Cindy simplesmente retratou a reação das pessoas em torno do mistico sagrado papa ( coisa que eu vou procurar no google depois), e a reação das mesmas. Se um individuo, tem capacidade de brigar com mais dois papas( acredite eram três), por um período de tempo pelo poder da igreja, imagina se as pessoas começam a dar o poder de novo a igreja??? Será que vão queimar as travas que nem bruxas?? Por isso eu falo, matem uma bi com requintes de crueldade, que não causará tanto efeito que um beijo papal homo-afetivo.