terça-feira, 15 de novembro de 2011 | 19:05 | 14 Comentários

Santa Intolerância


Quando a revolução começará? O mundo parece entrar em colapso e ainda somos questionados como usamos o nosso sexo. Por que ainda guardamos nossos canhões de balas arco-íris e não detonamos a guerra? Somos mais fortes juntos. Onde está a mobilização meteórica da parada gay? Por que nos sentimos ao mesmo tempo poderosos e subjugados?

Temos a violência mais forte nas mãos tal qual aquela de Gandhi? Sim, podemos ter, podemos usá-la, aliás, com temos feito, usando a palavra, o esclarecimento. Temos uma arma mais forte que a bomba atômica: a internet e sua isenção e alcance. A usamos mas talvez nem tenhamos noção ainda de seus desdobros. Aguardamos a obra que não contempla os contemporâneos, como disse Eagleton. Mas vamos esperar o saldo positivo da história daqui a 5,10,50 anos?

A caça as bruxas foi aberta. A temporada parece ser demoniacamente crucial para nosso movimento. Como continuar contra argumentos criados por uma eterna geração deles? Eles que têm o poder! Como deve ser a consistência de nosso escudo protetor?

O conhecimento canônico da Igreja que nada tem de indulgente e misericordiosa não muda há séculos. Páginas inteiras são reveladas com reflexões antigas e anacrônicas. Basta pensar a condição da mulher, e não vou citar versículos para parecer pedagógico. As bruxas que foram não passaram de perseguição gratuita e misógina, como se o poder da mulher, a grande vagina incompreendida engolisse o conhecimento do homem, só feito, produzido e perpetuado pelo Homem (gênero masculino, branco , eurocêntrico). E as outras categorias deveriam ser silenciadas, queimadas.

Hoje está sendo acesa as precárias e obsoletas cinzas de fogueiras medievais. Queimam por que existem aqueles que as alimentam.

Não há política a se perseguir neste Estado? O que entretém os deputados naquela casa? Por que assuntos estruturais não são debatidos, enquanto eles se protegem em sua bolha de privilégios? Eles não sabem de nossa bomba de arco-íris? Não sabem? Então, deixemos-lho saber. Mas ainda antes da declaração da guerra definitiva, temos a lei, os operadores do Direito, o voto, a mídia, a internet, o esclarecimento desvinculado dos valores bíblicos, o próprio sentido bíblico da convivência mútua pacífica, a Igreja Inclusiva – se formos trocar balas. Temos ainda nós mesmos. Temos o STF como corte como protetora da Constituição Federal. Ela está a favor de todos nós! Temos os Sérgios Cabrais da vida, que em referência homônima ao nosso descobridor, abriu as fronteiras de um novo Brasil. Ele abriu as portas para as grandes expedições em naus que flamulam as bandeiras dos arco-íris, e não em pura manifestação egoísta de nossa causa, eis que o arco-íris representa paz. A paz é atributo genérico a qualquer povo.


Lutemos pela paz, então, que é benéfica. Mas precisamos da guerra para alcançá-la? Hoje tenho convicção que sim, já que o inimigo, ou melhor, a bancada evangélica, mune-se de todo despautério secular para nos atacar. Precisamos da violência pacífica de Gandhi para nos proteger, mas não devemos recuar como o discurso, nem com as meias-conquistas. Devemos continuar a nos entender e entender nosso real propósito. 

Se não acho importante o casamento gay, devo, pelo menos, tentar entender que as conquistas estão apenas começando e que não devemos nos demover do continuar.

É difícil aglutinar os desejos de uma comunidade que ainda aprende a se identificar como tal. Somos muitos, misturados, mas nas pequenas conquistas vencemos as batalhas entrementes. Não vale a pena questionar, agora, as equiparações legais. Somos livres para o casamento ou não. Respeitar o direito do outro é garantir nosso próprio desejo.

Resta-nos saber o que queremos: ser sempre jovens ou garantir uma longeva juventude mental em que pese o tempo? Portanto, devemos continuar no front. Temos o Willis ao nosso favor, temos a lei, temos nós mesmos. Usemos nossas armas a exaustão.Decretemos a reação à caça as bruxas, mas cientes de que os verdadeiros demônios são eles.

Roberto Muniz Dias
Mestrando em Literatura pela UnB (Universidade de Brasília)


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14 comentários:

Yon disse...

‎"Lutemos pela paz", porém lutemos por nossa paz, para que possamos viver plenamente nossas vidas, conquistas, direitos iguais, nossa sexualidade sem que tenha que ser tolerada e sim aceita! LUTEMOS! Ótimo texto Roberto Muniz Dias !

Gustavo- Londrina/PR disse...

Fiquei extasiado com seu texto, parabéns!

Cobaias de Deus disse...

Querido Roberto Dias, só posso dizer uma coisa:
Sensacional, texto maravilhoso com clareza de objetivos, simples e instrutivo. Como é bom e gostoso ler de alguém ativista verdadeiro o total sentido que isto tem. Costumo dizer que primeiro brigo pelos meus e depois por mim. Adoro responder aos insultos dos Crivellas da vida, porém com a mais extrema educação pois cabe-nos não nos rebaixar a esse nível de pessoas de pouca inteligência . Lutemos por nossos direitos com as armas que a justiça nos contempla. Obrigado.

Roberto Dias disse...

Obrigado Yon.
A luta pela paz me remete ao absurdo de que se faz paz com a guerra. Mas lutemos contra os absurdos da vida sempre que sejam levantadas bandeiras de repúdio e ódio. Mas se necessário for lutaremos até a última palavra.

Roberto Dias disse...

Prezado Gustavo,

Fico em êxtase também quando sou compreendido e a mensagem é plenamente absorvida.
Obrigado pelo elogio e continue nos prestigiando no Política Ativa.

Abraços

Roberto Dias disse...

Prezado Cobaias de Deus,

Adorei o título de seu blogue.
Se não temos armas atômicas, temos pelo menos o bom senso da palavra combativa e panfletária.
Obrigado pelos elogios. O texto tem essa função mesmo: conscientizar e esclarecer.
Obrigado!

Luciana disse...

`Os verdadeiros demonios sao eles. Eles gente, eh q precisam de ajuda. Foram criados prum mundo hetero e foram mtas vezes punidos por qualquer atitude q nao fosse condizente c heteros. E agora tdo isso ai liberado?!!! Ta ruim p eles tbem.Chegara momento q eles perceberam q o mundo sera mais feliz e pacifico qdo tdos se respeitarem e se aceitarem. Parabens

RICARDO AGUIEIRAS disse...

Eu nunca duvidei, em três décadas de luta, que um dia chegaria/ chegará o confronto. Não adianta a gente ter medo e nem nos escondermos em confortáveis discursos de paz. Nunca, em toda História da humanidade, houve uma luta sem confronto, até mesmo na ìndia de Gandhi, citado aqui... Mesmo por que o inimigo é enorme, se arma muito bem, é unido e organizado, coisas que nos faltam. Sou extremamente a fvor do BashBack, sou a favor da Defesa Pessoal, sou a favor do uso de armas não letais em nossa defesa e sou a favor de tudo o que você citou aqui, Roberto querido, em seu belo e importante texto. Cheguei a um ponto em que temo apenas o conformismo, o comodismo. Claro que, na minha idade eu posso me dar ao luxo de chutar mesmo o balde, já que não devo mais nada a ninguém. Mentira, devo, sim. Sim, devo a tod@s vocês, lutadores e lutadoras, desde sempre. Obrigado pela reflexão que urge... Estou compartilhando no meu perfil!!! beijo do fã,
Ricardo Aguieiras
aguieiras2002@yahoo.com.br

Joana disse...

Parabéns pelo texto, simplismente excepcional!

Adalberto soares disse...

O que dizer de um artigo assim?
10
100
1000
MARAVILHOSO !

Anônimo disse...

Adorei, nos faz refletir sobre o que realmente precisa ser feito!

Graziella Mafraly disse...

Amai ao próximo como a ti mesmo? Quem ama, respeita. É fácil levantar uma bandeira "religiosa", "moralista", falar de evolução...
Dificil é respeitar as diferenças. Você não precisa concordar com as atitudes do outro, nem ao menos gostar, mas é seu dever respeitar.
Amei seu texto.

Tathi Torres disse...

Cada dia mais admiro sua intelectualidade e clareza de idéias.

#sousuafã

Ivone disse...

Roberto,

gosto muito dos seus textos. Do conteúdo, da forma, mas este foi especial, pelo chamamento à luta, ao enfrentamento, às armas, que se não ferem fisicamente, ferem fundo o conservadorismo e moralismo aos quais nos querem forçar.

Um beijo de espera pelos próximos chamados! =)