quarta-feira, 20 de junho de 2012 | 21:26 | 3 Comentários

Apagamento das Ids trans e não-cis: como empoderá-las

Por Bia Pagliarini Bagagli

Frequentemente vejo em publicações dos mais diversos gêneros, nas mídias e no cotidiano, situações e enunciados em que as identidades não-cis e trans são apagadas. Poucas pessoas sabem o que é cisgênero, entretanto, é mais provável que tenham ouvido o termo transgênero. Porque será?

Acho que se pode encontrar uma boa comparação entre os termos heterossexual e homossexual. Acredito que ambos os termos são de fácil acesso e uso da população em geral. Mas foi sempre assim? Nem sempre, o homossexual teve que existir primeiro para depois existir o heterossexual. E não estou falando de pessoas empíricas que se relacionam afetivamente/sexualmente com outras, estou me referindo a terminologias, a visibilidade social. Homossexual surgiu primeiro porque transgrediu a norma. E normas são sempre naturalizadas: não é necessário conceituar, de modo a fazer oposição com outro termo, se todas as pessoas são assim, se é natural ser heterossexual e o desviante, e, portanto, o único que deve ser classificado/patologizado é o homossexual. Hoje em dia a homossexualidade não é mais uma patologia e a vivência heterossexual é cada vez mais desnaturalizada, de modo a se fazer entender que não é a única norma a ser seguida e sim, uma possibilidade válida entre outras (infelizmente, fato ainda não alcançado integralmente).

Entretanto, a transgeneridade está ainda em um nível de discussão ainda mais inferior. Isso fica claro pela ausência do uso cisgênero. Fica evidente que ser “normal” é ser cisgênero fazendo das pessoas trans*aberrações. Quando ouvimos “mulher” ou “homem” sempre fica implícito que são pessoas cisgêneras. Quando alguma pessoa trans* é citada, é prontamente identificadx como uma pessoa travesti ou transexual, assim, cria-se a ideia que pessoas trans não são homens ou mulheres de “verdade”. Jornalistas se sentem no direito de usar nomes e gêneros errados com as pessoas trans* segundo argumentos falaciosos sobre o uso correto gramaticalmente.

Pessoas trans* são obrigadas a sempre explicarem seus gêneros, seus corpos, suas identidades, suas orientações; são obrigadas a provarem que são de determinado gênero para conseguirem atendimento médico para mudanças corporais; são obrigadas a dependerem da boa vontade de um juiz para mudarem de nome nos documentos e a cirurgia genital obrigatória para mudarem de sexo; mulheres trans são ora vistas como caricaturas de mulheres, se se utilizam de expressões de gêneros mais tradicionais, ora são vistas como menos mulheres, portanto, menos humanas, se não são femininas o bastante, homens trans* simplesmente não existem já que para o senso comum são “lésbicas masculinas”; pessoas trans* (ou não-cis) que não se identificam no binário de gênero são diminuídas em sua humanidade e acusadas de mancharem a imagem de transgênerxs binárixs. Tudo isso se trata de um pequeno recorte, são exemplos de cissexismo.

Acrescenta-se o prefixo ‘cis’ diante do sexismo para designar toda opressão sofrida pelas pessoas trans*, toda crença de que pessoas trans* são aberrantes. Achar que apenas pessoas trans* possuem identidade de gênero (e pessoas cis possuem apenas gênero) é acreditar que apenas xs trans* constroem sua identidade, isso não é verdade, pois as performances de gênero construídas socialmente utilizadas tanto por pessoas cis quanto por trans* são as mesmas. Mulheres ou homens trans* não reforçam estereótipos de gênero mais do que homens e mulheres cis. O uso do termo cisgênero é necessário para empoderar pessoas trans*, não para criar dicotomias hierárquicas entre quem é mais ou menos trans ou cis, pois existem pessoas fora e além do binário de gênero, mas sim para denunciar privilégios cis, desnaturalizando-os.


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3 comentários:

Fabi disse...

Sinceramente nao acho necessario o termo cis a frente dos nomes homem e mulher... Acho q ja sao designados assim e nao ha carga de preconceito nisso. O que devemos lutar e para que os privilegios e as ofensas citados no texto seja apolida. Acho q e termo demais que gera discussao demais e que colhem poucos frutos se ficarem se prendendo a nomes. Ha muito mas a se conquistar para o transgeneros d q um simples nome.

Garota Psykóze disse...

Sobre o comentário acima: "acho q é termo demais" - não haveria necessidade de tantos termos se o ser humano não resolvesse a natural angústia ante o desconhecido apenas com a ação de rotular tudo. Felizmente, muitas pessoas lidam com essa angústia de outras formas, como respeitando a complexidade e a infinita variedade humana!
Enquanto todos não chegam nesse nível de evolução, a variedade de termos é necessária, pois não existe um "normal", básico, sem nome (e o que fugir disso é o anormal que precisa de termo). E a variedade de termos serve pra demonstrar a variedade de possibilidades humanas!

Anônimo disse...

Oi, eu sou Mateus Askaripour, conhecido mais como Matt, foi convenientemente colocado dentro de uma família de cinco rapazes, em Long Island, Nova York. Obrigado por seu blog agradável.
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