terça-feira, 10 de julho de 2012 | 01:56 | 0 Comentários

Entre o combate e a propaganda

Grupos discriminados ao longo da história lutaram e conquistaram espaço, reconhecimento e leis específicas (Foto: Francini Saldanha)Grupos discriminados ao longo da história lutaram e conquistaram espaço, reconhecimento e leis específicas (Foto: Francini Saldanha)
Vários grupos discriminados ao longo da história lutaram e conquistaram espaço, reconhecimento e leis específicas. Mesmo tendo muito que conquistar, todos tem uma melhor inserção social ainda que carreguem várias pechas de preconceito, vários rótulos, acusações, antipatias, desqualificações e mesmo cerceamentos e não são mais a mola propulsora dos pânicos coletivos. Neste quesito, é a nossa vez, a vez dos LGBTs. Não falo do pânico gerado em nós pela violência, pelas agressões, pelas torturas e assassinatos. Sobre este digo sempre e repito: em vez de nos recolhermos e sermos invisíveis, como querem os homofóbicos, temos mais é que ocupar os espaços, garantir nossos direitos e legitimar cada vez mais nossa existência. Refiro-me ao pânico criado por nossos algozes a partir de nós: o pânico social. Este é sempre criado de maneira pensada, bem arquitetada, com o claro objetivo de tornar um grupo social discriminado, em inimigo da sociedade, seja através de que artifícios torpes forem necessários, de forma que este seja impedido de alcançar equiparação de direitos e exercício pleno de sua cidadania.

O pânico social serve justamente para recrutar uma parcela excluída da sociedade: a que não faz parte do grupo social apartado de seus direitos nem do grupo que quer manter a situação de opressão por tirar proveito do embate. Estas pessoas, à margem de todo este conflito, são recrutadas por dizerem a elas que a sociedade como conhecem mudaria drasticamente caso o grupo discriminado conquistasse cidadania – naturalmente não com estas palavras, mas dizendo que o grupo não é discriminado, que deseja privilégios, proteção especial, que deseja se alçar a uma categoria superior aos demais cidadãos. Defendem, portanto, que o controle, o impedimento à conquista de algum direito é algo plenamente justo, pois serve para conter abusos, concessões especiais, com o claro objetivo de gerar horror em relação a um determinado grupo.

Temos de tomar muito cuidado para não fazer eco a nossos algozes lhe ampliando a voz, lhes dando espaço e lhes promovendo os discursos e ideias (Foto: Getty Images)Temos de tomar muito cuidado para não fazer eco a nossos algozes lhe ampliando a voz, lhes dando espaço e lhes promovendo os discursos e ideias (Foto: Getty Images)
Como grupo-alvo da vez, temos de tomar muito cuidado para não fazer eco a nossos algozes lhe ampliando a voz, lhes dando espaço e lhes promovendo os discursos e ideias. Há muitas pessoas que lutam contra a cidadania LGBT de quem nunca havíamos ouvido falar, nem o público geral e nem sequer tinham destaque midiático e, no entanto, após terem um nicho de promoção, falar impropriedades e absurdos sobre LGBTs, através de agressão e distorção de discursos, estão em destaque e com tal projeção, que arregimentam mais incautos, perturbados e aproveitadores. Dar espaço a este tipo de gente e a seus discursos, citando quem são e o que defendem, mesmo que seja criticando, é promover quem quer mesmo promoção, ou seja, é colaborar com eles. A crítica, o questionamento e a desconstrução do discurso podem ser feitos sem que as pessoas e suas falas sejam citadas de maneira a lhes propagandear. Muitas vezes nos atemos aos discursos e às ações de pessoas sem importância ou influência, que apenas querem se promover à custa de polêmica, em vez de promover ações e textos de quem realmente interessa, ou seja, nossos pares.

Promover os desimportantes, os que têm pouco alcance e nenhum poder efetivo de nos cercear os direitos, serve somente para atrair o tipo de gente torpe que concorda com a discriminação e que nos causa apenas revolta e tristeza. Temos de ter discernimento – o que nem sempre é fácil, como sabemos - para saber quem e o que é importante combater, pois é de fato nocivo à conquista de nossos direitos ou quem é totalmente inócuo e seria apenas promovido de forma gratuita e justamente por nós, seus alvos. Os que têm realmente o poder de decidir sobre a vida alheia, elaborar e aprovar ou reprovar leis, os que têm grande alcance midiático, estes sim, devem ser combatidos, mas ainda assim, com o devido cuidado para não nos usarem como promotores de suas figuras e ideias. E precisamos prestar atenção às estratégias usadas para nos desviar de nossos objetivos. Vamos lutar, mas sem desperdiçar energia com pessoas e coisas que não valem a pena.

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